No coprocessamento não existe cinza. O que não vira energia vira clínquer. Essa é a chave para entender os critérios de aceitação do coprocessamento de resíduos: a unidade parceira não avalia a sua corrente como um problema a ser eliminado, e sim como insumo de um processo que fabrica um produto com especificação técnica. Se o resíduo compromete o combustível, o forno ou o cimento, ele é recusado — mesmo que esteja corretamente classificado, corretamente acondicionado e com o transporte já agendado.
A recusa raramente é arbitrária. Ela vem de um conjunto de parâmetros físico-químicos que se repetem em praticamente toda unidade de coprocessamento em forno de cimento, ainda que os limites numéricos variem de planta para planta. Entender esses parâmetros antes de contratar a rota evita carga parada no pátio, remessa devolvida e cronograma de destinação estourado.
O forno não trata o resíduo: ele o consome duas vezes
A fabricação de clínquer ocorre em forno rotativo cuja zona de sinterização opera acima de 1.400 °C, com tempo de residência dos gases medido em segundos em temperaturas elevadas. Nessa condição, a fração orgânica do resíduo é destruída e libera energia térmica, substituindo parte do combustível fóssil. É o primeiro consumo.
O segundo é o que diferencia o coprocessamento da incineração convencional: a fração mineral remanescente não sai do processo como cinza a ser aterrada. Ela é incorporada quimicamente à matriz do clínquer. Sílica, alumina, ferro e cálcio presentes no resíduo passam a compor o produto final.
Daí a rigidez. O forno recebe um resíduo, mas entrega um cimento que precisa atender especificação de desempenho e de composição. Tudo que entra pelo maçarico ou pela alimentação de matéria-prima tem de caber nesse balanço. Um resíduo só é aceito quando é, ao mesmo tempo, um bom combustível e uma matéria-prima aceitável.
Coprocessamento de resíduos: critérios de aceitação, parâmetro a parâmetro
Não existe tabela nacional única de limites. Cada unidade parceira publica a própria ficha de aceitação, delimitada pela licença de operação emitida pelo órgão ambiental e pelas condicionantes impostas a ela. Os parâmetros avaliados, no entanto, são sempre os mesmos.
Poder calorífico
É o critério de entrada quando a corrente é destinada à substituição de combustível. O poder calorífico de resíduo industrial mede quanta energia o material libera na queima. Solventes usados, borras de tinta, resinas, EPI contaminado com óleo, serragem impregnada e resíduos de origem plástica costumam pontuar bem. Lodos com alto teor de água, resíduos predominantemente minerais e materiais já oxidados, não.
Poder calorífico baixo não é apenas uma perda: um material que consome energia para ser aquecido rouba calor do processo e desestabiliza a formação do clínquer.
Umidade
Água é o inimigo silencioso da rota. Cada quilo de água precisa ser evaporado dentro do forno, e essa evaporação consome exatamente a energia que o resíduo deveria fornecer. Um lodo de estação de tratamento com alto teor de umidade pode ter carga orgânica interessante no laudo e ainda assim ser reprovado no balanço térmico.
É a razão pela qual o desaguamento prévio — filtro-prensa, centrífuga, leito de secagem — muda o veredito de uma corrente que antes não cabia.
Cloro
O parâmetro que mais reprova carga. O tema do resíduo com cloro coprocessamento merece atenção porque o efeito não aparece na chaminé: aparece dentro do equipamento. Cloro volatiliza no forno, migra com os gases, condensa nas regiões mais frias e forma incrustações — os chamados anéis de colagem — que estrangulam a passagem do material e podem obrigar à parada do forno.
PVC, borrachas cloradas, alguns solventes clorados e resíduos salinos entram nessa conta. Por isso a pergunta da unidade nunca é apenas “quanto de cloro tem”, e sim “quanto de cloro o forno já está recebendo de todas as fontes somadas”. A mesma corrente pode ser aceita em um mês e recusada no seguinte.
Metais
Metais se dividem, na prática, em dois grupos. Os que se incorporam à estrutura do clínquer sem prejuízo relevante, e os voláteis — mercúrio e tálio à frente — que não ficam no produto e escapam com os gases. Estes últimos costumam ter os limites mais restritivos de toda a ficha de aceitação, e são o motivo pelo qual lâmpadas, borras com mercúrio e alguns catalisadores exauridos seguem outras rotas, como a descaracterização com recuperação de mercúrio.
Enxofre, álcalis e fósforo
Enxofre e álcalis (sódio e potássio) participam do mesmo mecanismo de volatilização e condensação do cloro e também formam incrustações. Fósforo em excesso interfere na formação das fases do clínquer e afeta o tempo de pega do cimento. São parâmetros menos citados em conversa comercial e bastante citados em recusa técnica.
Forma física, granulometria e bombeabilidade
Um resíduo aprovado no laboratório pode ser reprovado na logística. Sólidos precisam ter granulometria compatível com o sistema de alimentação; líquidos precisam ser bombeáveis, sem separação de fases e sem sedimento que entupa bico. Pastas muito viscosas, materiais fibrosos longos e cargas com peça metálica misturada travam a linha antes de chegar ao forno.
O caminho da amostra: como a corrente é aprovada ou reprovada
A avaliação segue uma sequência previsível. Conhecê-la encurta o prazo de aprovação.
- Caracterização do resíduo conforme a ABNT NBR 10004, com definição da classe — Classe I (perigoso), Classe IIA (não perigoso não inerte) ou Classe IIB (não perigoso inerte) — e do código correspondente.
- Preenchimento da ficha de informação do resíduo, com processo gerador, volume mensal estimado, forma de acondicionamento e histórico de destinação.
- Envio de amostra representativa. Amostra colhida do topo do tambor não representa o lote. Amostra não representativa é a causa mais comum de divergência entre o laudo e a carga que chega ao portão.
- Análise laboratorial dos parâmetros de aceitação e simulação do efeito da corrente no balanço do forno.
- Teste de compatibilidade e definição do blend.
- Aceite técnico, seguido do licenciamento da movimentação junto à CETESB.
Só depois do aceite técnico faz sentido pedir o CADRI — Certificado de Movimentação de Resíduos de Interesse Ambiental. O documento vincula gerador, resíduo e destinador específicos. Pedir CADRI antes de saber se a rota é viável é retrabalho garantido.
Por que o blend muda o veredito
Nenhuma unidade queima uma corrente isolada. Ela monta um blend de resíduos para coprocessamento: uma mistura de várias origens, calculada para entregar poder calorífico estável e manter cloro, enxofre, álcalis e metais dentro do envelope da licença.
Isso explica dois comportamentos que costumam soar contraditórios para o gerador. Primeiro, uma corrente com poder calorífico medíocre pode ser aceita porque complementa outras mais energéticas. Segundo, uma corrente excelente como combustível pode ser recusada porque o teor de cloro já está no limite por causa de outros geradores. A decisão é do conjunto, não da sua carga isolada.
Também é por isso que aprovação não é permanente. Mudou o processo produtivo, mudou o fornecedor de insumo, mudou a matéria-prima — a corrente precisa ser recaracterizada.
Recusas que não têm nada a ver com química
Parte relevante das devoluções ocorre com resíduo tecnicamente elegível. Os motivos são documentais e operacionais:
- Divergência entre o laudo de classificação e o material efetivamente embarcado.
- CADRI vencido, ou vigente mas sem a corrente e o código específicos descritos.
- MTR preenchido com quantidade, código ou classe incompatíveis com a carga.
- Acondicionamento inadequado — tambor sem identificação, bombona avariada, big bag com resíduo incompatível misturado.
- Mistura de correntes no mesmo recipiente, o que inviabiliza qualquer rastreabilidade analítica.
Carga recusada no portão volta ao gerador. O resíduo continua no pátio, a responsabilidade continua com quem gerou e o prazo de armazenamento temporário segue correndo.
A rota não coube. Quais são as alternativas
Reprovação no coprocessamento não significa impasse. Significa que a corrente pertence a outra rota, sempre em unidades licenciadas. As saídas mais comuns:
- Pré-tratamento e nova submissão — desaguamento para reduzir umidade, trituração para adequar granulometria, segregação na origem para remover a fração que carrega o contaminante crítico.
- Incineração — para correntes cuja destruição térmica é necessária, mas cujo perfil químico não cabe no clínquer.
- Aterro industrial licenciado — destino de resíduo Classe I que não admite rota térmica. Atenção: aterro sanitário não recebe resíduo Classe I. Confundir os dois é falha grave de destinação.
- Dessorção térmica — para solos e materiais contaminados por orgânicos voláteis.
- Estação de tratamento de efluentes — para correntes líquidas aquosas compatíveis.
- Reciclagem, manufatura reversa e compostagem — para frações Classe IIA e IIB que sequer deveriam disputar espaço em rota térmica.
A escolha entre elas não é preferência: é resultado da caracterização. E precede a elaboração do PGRS, que deve descrever a rota real de cada corrente, não a rota desejada.
Aprovado no forno, reprovado na auditoria
Há um cenário pior que a recusa: a carga aceita, processada e sem prova documental fechada. A destruição do resíduo não extingue a obrigação do gerador. O que extingue é a cadeia probatória, e ela tem endereço definido em São Paulo: MTR (Manifesto de Transporte de Resíduos) emitido no SIGOR/CETESB, movimentação amparada por CADRI válido e, ao final, CDF — o Certificado de Destinação Final emitido pelo destinador. Os dados alimentam ainda a DMR apresentada ao órgão ambiental.
É esse conjunto que sustenta renovação de licença, homologação de fornecedor, auditoria de cliente e due diligence. A Lei 12.305/2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, firma a responsabilidade compartilhada por todo o ciclo. A responsabilidade não sai com o caminhão.
Perguntas frequentes sobre os critérios de aceitação
Coprocessamento aceita resíduo Classe I?
Sim. Diversas correntes Classe I são coprocessadas em unidades licenciadas. A classe conforme a NBR 10004 não decide a aceitação — ela define o regime documental e de transporte. Quem decide a aceitação é o perfil físico-químico.
Meu resíduo foi aceito no ano passado. Preciso caracterizar de novo?
Sim, sempre que o processo gerador, o insumo ou o fornecedor mudar. E a unidade pode exigir recaracterização periódica por condicionante da própria licença.
Posso enviar ao coprocessamento sem CADRI?
Não. Em São Paulo, a movimentação de resíduo de interesse ambiental para o destinador exige CADRI vigente, emitido pela CETESB, com a corrente e o código descritos.
Resíduo com muita água pode ser coprocessado?
Depende do teor. Alta umidade consome energia do forno e costuma reprovar a corrente. Desaguamento prévio pode viabilizar a rota; quando não viabiliza, a corrente segue para tratamento em efluente ou aterro industrial, conforme a classificação.
Quem emite o CDF do coprocessamento?
A unidade destinadora que processou o resíduo, após a destinação efetiva. O gerador deve arquivar o certificado e conciliá-lo com os MTR correspondentes.
A Seven atua como gestora ambiental: classifica a corrente e emite o laudo conforme a ABNT NBR 10004, elabora o PGRS, faz o sourcing do destinador licenciado, executa coleta e transporte com frota rastreada e conduz a emissão e a gestão de MTR, CADRI e CDF. O tratamento térmico ocorre em unidades parceiras credenciadas. No Portal do Cliente, o gerador acompanha coletas e reemite documentos. Não basta destinar — é preciso provar.
