Tratamento termico: residuos de banhos de sal e cianeto

Tratamento termico em banho de sal: o residuo mais toxico da metalurgia de precisao

O tratamento térmico é etapa crítica na fabricação de peças metálicas de alta performance — engrenagens, eixos, ferramentas de corte, matrizes de forjamento, buchas de mancal. Para obter as propriedades metalúrgicas exigidas (dureza superficial, tenacidade do núcleo, resistência ao desgaste), grande parte das peças passa por tratamentos em banhos de sal fundido.

Esses banhos operam a temperaturas entre 150°C e 950°C dependendo do processo, e utilizam sais altamente tóxicos — cianeto de sódio (NaCN), carbonato de sódio (Na₂CO₃), cianato de potássio (KCNO), nitrato de sódio (NaNO₃), nitrito de sódio (NaNO₂) e nitrato de potássio (KNO₃) como componentes principais.

A falha na gestão dos resíduos desses banhos — lamas de fundo, banho exaurido, efluentes de lavagem — é uma das infrações ambientais com consequências mais graves na metalurgia, por envolver substâncias com limites de lixiviação extremamente baixos na NBR 10004 e potencial de crime ambiental qualificado pela toxicidade aguda do cianeto.

Tipos de banhos de sal e os residuos que geram

Processo Composição do banho Temperatura Resíduo principal Classificação NBR 10004
Cementação líquida (carbonitretação) NaCN 20–50% + Na₂CO₃ + NaCl 820–950°C Banho exaurido (cianeto degradado a carbonato) + lama de fundo com cianeto residual Classe I — CN⁻ limite de lixiviação 0,07 mg/L (Anexo A NBR 10004)
Nitretação em banho de sal (TENIFER / QPQ) Cianato de potássio (KCNO) + carbonato + resíduo NaCN <5% 560–590°C Banho exaurido com cianato e cianeto residual; lama preta de fundo com Fe₃N Classe I — cianeto residual; avaliar LCR para cianato e nitrogênio
Têmpera em banho de nitrato/nitrito (marquenching) NaNO₃ + KNO₃ + NaNO₂ (proporção variável) 150–550°C Banho exaurido com nitratos/nitritos degradados; lama de fundo com óxidos e escamas de peça Classe I possível por reatividade (oxidante forte §5.4) ou toxicidade (nitritos); verificar LCR
Têmpera em banho de chumbo (lead quenching) Pb fundido (obsoleto, ainda encontrado em parques antigos) 320–600°C Dross de chumbo + escamas de Pb + resíduo de limpeza Classe I — Pb limite 1,0 mg/L lixiviação (Anexo A)
Recozimento e normalização em banho de sal neutro BaCl₂ ou misturas de cloretos (KCl, NaCl) 800–1000°C Banho exaurido com cloretos de Ba, escamas de metal Classe I se BaCl₂ (Ba limite 35 mg/L lixiviação); sais de Na/K podem ser II-A

Classificacao NBR 10004: por que o cianeto e Classe I sem excecao

O cianeto é um dos compostos com menor limite de lixiviação tolerado na NBR 10004 Anexo A: CN⁻ total: 0,07 mg/L. Para efeito de comparação, o limite do chumbo é 1,0 mg/L (14× maior) e do arsênio é 1,0 mg/L.

Banhos de cementação líquida frescos contêm NaCN a 20–50% em massa — concentrações na ordem de 200.000 a 500.000 mg/kg. Mesmo banhos “exauridos” onde o NaCN foi convertido majoritariamente a Na₂CO₃ pela operação retêm cianeto residual em concentrações muito acima do limite de lixiviação. A lama de fundo do banho concentra cianeto, cianato e metais das peças tratadas.

Reatividade do banho de nitrato/nitrito: O banho de marquenching (NaNO₃+KNO₃+NaNO₂) é um oxidante forte em temperatura de operação. O resíduo sólido frio mantém propriedades oxidantes — em contato com materiais orgânicos (papelão, serragem, solventes) pode reagir vigorosamente. O §5.4 da NBR 10004 classifica como Classe I resíduos que reagem violentamente com água ou ar, produzem gases tóxicos, ou são oxidantes fortes. O LCR deve verificar o índice de reatividade.

Bário nos banhos neutros: O BaCl₂ é usado em banhos de alta temperatura por seu ponto de fusão elevado e boa condutividade térmica. O bário é altamente tóxico (solúvel, absorvido via pele e pulmão); resíduos com BaCl₂ são Classe I pelo limite de Ba (35 mg/L lixiviação). A substituição por sais de cloreto de potássio/sódio elimina o problema, mas parques antigos ainda operam com BaCl₂.

O risco de HCN: a dimensao ocupacional e ambiental

O cianeto em meio ácido libera ácido cianídrico (HCN) gasoso — “prussic acid” — um dos gases mais tóxicos conhecidos. O limite de exposição ocupacional (ACGIH TLV-C) para HCN é 4,7 ppm (teto — nunca exceder).

Situações de risco em tratamentos térmicos:

  • Contato do banho quente com água: A peça não completamente seca inserida no banho provoca salpicos violentos e liberação de vapores de NaCN. É a principal causa de acidentes fatais em câmaras de cementação.
  • Descarte de resíduo em contato com ácidos: A lama de cianeto descartada no ralo da ETE ácida ou em mistura com efluente ácido libera HCN gasoso — risco de intoxicação dos operadores e da equipe de ETE. Este é um dos cenários mais graves de acidente com resíduo industrial.
  • Armazenamento inadequado: Tambores de banho exaurido armazenados externamente expostos à chuva ácida ou em contato com materiais ácidos.

A NR-15 classifica o HCN como agente químico com valor teto de 1 ppm (diferente do TLV-C do ACGIH — a norma brasileira é mais restritiva). O PGRS de empresas com banhos de sal deve incluir procedimento de emergência para HCN com detectores de gás posicionados nos locais de armazenamento de resíduo.

Destinacao correta: destruicao de cianeto e rotas aprovadas

Destruicao quimica do cianeto

O método padrão para tratamento de soluções e lamas com cianeto é a oxidação alcalina em duas etapas:

Etapa 1 — Oxidação a cianato (pH 10,5–11, Cl₂ ou NaClO):
CN⁻ + Cl₂ → CNCl + Cl⁻ → (pH alcalino) → CNO⁻ + HCl
O clorocianogênio (CNCl) é intermediário tóxico — a reação deve ser conduzida em pH ≥10,5 para evitar sua acumulação.

Etapa 2 — Oxidação do cianato a CO₂ + N₂ (pH 8–8,5, excesso de Cl₂):
2 CNO⁻ + 3 Cl₂ + 4 OH⁻ → 2 CO₂ + N₂ + 6 Cl⁻ + 2 H₂O

Alternativa com H₂O₂: menos corrosivo que Cl₂, mas requer catalisador (Cu²⁺ ou SO₄²⁻) e pH controlado. Utilizado em instalações dentro de parques industriais que preferem evitar o manejo de Cl₂ gasoso.

Empresas que realizam a destruição internamente devem ter o processo validado por laboratório credenciado antes de descartar o efluente tratado. O efluente final deve atender os padrões de emissão da CETESB para CN⁻ total (geralmente <0,2 mg/L no efluente final para lançamento em corpos d’água).

Coprocessamento em cimenteiras

Banhos de sal exauridos com alto teor orgânico e metais podem ser aceitos em coprocessamento em fornos de cimento. A temperatura dos fornos (1450°C na zona de clinquerização) destrói o cianeto termicamente. A cimenteira exige análise prévia do resíduo (LCR completo) e pode recusar materiais com teor de cloro elevado (nitratos clorados) ou metais que afetem a qualidade do clínquer (Ba, Pb, Cr, Ni acima de limites específicos).

Aterro industrial Classe I (destinacao de ultima instancia)

Para lamas sólidas de cianeto onde a destruição química não é viável e o coprocessamento é recusado pela cimenteira, o aterro industrial Classe I (conforme NBR 10157) é a rota de disposição final. Esta é a opção de maior custo e deve ser precedida de tratamento para redução do CN⁻ livre. O LCR deve confirmar que a lama atende os critérios de aceitação do aterro (solubilização NBR 10006).

Gestao operacional: segregacao, armazenamento e inventario de banhos

A gestão correta começa antes da geração do resíduo:

  • Segregação obrigatória: Banhos de cianeto NUNCA devem ser misturados com banhos de nitrato/nitrite ou com efluentes ácidos. A mistura pode liberar HCN ou provocar reação exotérmica violenta. Cada tipo de banho tem seu contêiner dedicado, rotulado e com incompatibilidades indicadas.
  • Armazenamento em área coberta: Tambores de banho exaurido devem ser armazenados em área coberta, sobre bacia de contenção de concreto (sem rachaduras), longe de ácidos e materiais orgânicos. A área deve ter sensor de HCN se o armazenamento for superior a 50 litros.
  • Inventário de banho: Registro de data de preparação, composição inicial, análises de controle (pH, atividade de CN⁻, teor de carbonato) e data de exaustão. O inventário suporta o cálculo de geração de resíduo para o PGRS e a justificativa da classificação NBR 10004.
  • EPI e treinamento: Operadores que manuseiam banhos e resíduos de cianeto devem usar protetor facial, luvas resistentes a produtos químicos e avental impermeável. O kit de resgate com antídoto (hidroxicobalamina ou amil nitrito+tiossulfato de sódio) deve estar disponível na área. Treinamento anual documentado é requisito da CETESB em inspeções a tratamentos térmicos.

Obrigacoes documentais para geradores de residuos de cianeto

Empresas com banhos de sal de cianeto têm um perfil documental mais exigente que a maioria dos geradores industriais, pela combinação de Classe I + substância de alta toxicidade aguda:

LCR: Por tipo de banho (cimentação, nitretação, marquenching) e por lote de resíduo se a composição variar significativamente. Parâmetros mínimos: CN⁻ total, metais (Fe, Cr, Ni, Pb, Ba conforme peças tratadas), pH, nitratos/nitritos (para banhos oxidantes), teste de reatividade (§5.4). Frequência: anual ou a cada mudança de fornecedor de sal.

PGRS: Deve incluir fluxogramas de segregação, locais de armazenamento com dimensionamento de bacia de contenção, procedimento de emergência para vazamento/derramamento com HCN, e lista de EPIs obrigatórios por área.

CADRI + MTR SIGOR: Obrigatório para Classe I. O transportador de resíduo de cianeto deve ter treinamento MOPP e o veículo deve portar o rótulo de risco da ONU (código ONU: varia por forma física — sólido 1689, solução 1935). O MTR deve especificar o nome técnico do resíduo e o código ONU.

CTF/IBAMA: Gerador de resíduo com cianeto livre é obrigado ao CTF/IBAMA e ao DARS. O limite de 1 kg/dia de Classe I é facilmente excedido em operações com trocas trimestrais de banho — um tambor de 200 kg de lama de cianeto trocado trimestralmente equivale a 2,2 kg/dia de média.

Manifesto de emergência: Para armazenamento acima de quantidades limiares (varia por estado), pode ser exigido plano de atendimento a emergências químicas registrado no PAE.

Perguntas frequentes

P: O banho de sal “exaurido” que ja virou quase todo carbonato ainda e Classe I?
R: Sim. A conversão do NaCN a Na₂CO₃ nunca é completa na prática — há sempre cianeto residual. Mesmo com CN⁻ aparentemente baixo no teste de campo (kit colorimétrico), a análise laboratorial por método padrão (titulação argentométrica ou ISE) em condições de lixiviação NBR 10005 é necessária para confirmar. Não há presunção de Classe II para banhos originalmente de cianeto sem LCR comprovando.

P: A empresa pode diluir o banho de cianeto com agua para baixar a concentracao antes de descartar?
R: Não. A diluição de resíduo perigoso para fins de descarte é expressamente vedada pela Lei 12.305/2010 (PNRS) e pela Resolução CONAMA 313/2002. A diluição não destrói o cianeto — apenas aumenta o volume de resíduo perigoso. A CETESB autua a prática de diluição como tratamento irregular de resíduo.

P: O processo QPQ (Quench-Polish-Quench) gera menos residuo que o processo TENIFER tradicional?
R: O QPQ incorpora uma etapa adicional de polimento e retempera no banho oxidante, gerando lama com magnetita (Fe₃O₄) e cianato além do cianeto residual. Em termos de volume total de resíduo gerado por kg de peça tratada, o QPQ é comparável ao TENIFER. A vantagem ambiental do QPQ não está no resíduo gerado, mas na redução do consumo de novo sal de cianeto por ciclo operacional mais eficiente do banho.

P: A empresa pode fazer a destruicao quimica do cianeto internamente sem licenca especifica?
R: Depende do estado e da escala. Em São Paulo, o tratamento de resíduo industrial perigoso in-situ pode estar contemplado na Licença de Operação da empresa se o processo de destruição foi incluído no licenciamento original. Se não foi, a atividade de tratamento de resíduo requer Licença de Operação específica para “tratamento de resíduo industrial” ou enquadramento no sistema LAC (Licença por Adesão e Compromisso) se elegível. Operar a destruição sem respaldo legal expõe a empresa à autuação.

P: Residuos de rinsagem das pecas apos tratamento termico precisam de CADRI?
R: Depende da análise. A água de rinsagem contém cianeto carreado da peça — mesmo pequenas concentrações resultam em lixiviação acima do limite. O efluente de rinsagem deve ser analisado separadamente do banho exaurido. Se a concentração de CN⁻ após rinsagem for <0,2 mg/L e a empresa tiver ETE com sistema de tratamento de cianeto licenciado, pode ser tratado e lançado. Se não houver sistema de tratamento licenciado, é resíduo líquido Classe I com obrigação de CADRI para destinador externo ou destruição interna comprovada.

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