Resíduos da Indústria de Malharia e Tricô: Guia

Panorama da fabricação de tecidos de malha e tricô industrial

A produção brasileira de tecidos de malha forma um segmento técnico próprio dentro do universo têxtil, distinto da tecelagem plana, da tinturaria de acabamento e da confecção. A operação de malharia organiza-se em torno da máquina circular (tear cilíndrico que produz tecido em forma de tubo contínuo) e do entrelaçamento de fios em laçadas. Marcas como Marisol Malharia, Hering Malharia, Lupo Tubulares, Malwee Malharia e Têxtil Renauxview Malhas operam plantas voltadas para meias tubulares, camisetas básicas brancas pré-acabamento e suéteres tricotados industrialmente.

Para visão geral integrada da gestão industrial, a Seven Resíduos mantém conteúdo de referência sobre múltiplos verticais. A regulação aplicável estratifica-se em camadas: NBR 10004 para classificação, Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) e licenciamento estadual. A particularidade do tubular crú (tecido circular sem tingimento, base para confecção) e da geração concentrada de refilo nas pontas do rolo cria perfil distinto da tecelagem plana e da tinturaria pura.

Mapeamento das correntes geradas no chão de fábrica

A operação típica de malharia circular gera resíduos predominantemente classe II, com correntes específicas classe I ligadas ao óleo de tear, ao banho residual da tinturaria de fios quando integrada e ao lodo de tratamento. A segregação na origem é alavanca técnica da gestão.

O refilo de pontas de malha corresponde às sobras das extremidades do rolo de tubular após o desenrolamento da máquina circular. É corrente extensa e contínua, com material homogêneo de algodão, poliéster ou misto. A fração encaminha-se para desfibramento têxtil (recuperação de fibra para shoddy) ou coprocessamento em forno de cimento.

O refugo de tubular crú abrange peças do rolo de malha com defeito de pontos, furos, falhas de laçada ou variação de gramatura, identificadas antes da tinturaria. Por estar livre de corante, a corrente preserva valor para reciclagem têxtil mecânica e desfibramento, condição que a malharia compartilha com poucos verticais.

Os fios soltos vêm do refugo de cone, da alimentação da máquina circular e do controle de tensionamento. São fios contínuos cortados, geralmente em mistura de algodão e elastano ou poliéster e elastano, encaminhados para reciclagem têxtil quando segregados por composição.

A sucata de agulhas e platinas de máquina circular é corrente metálica específica do tear cilíndrico, com agulhas quebradas no entrelaçamento. Por ser perfurocortante, exige acondicionamento em recipiente rígido lacrado e segue para reciclagem metálica especializada, com rastreabilidade documental.

O refugo de costura de ribeteamento de meias é gerado no acabamento da boca da meia. O ribeteamento de meias (acabamento da boca da meia para evitar desfiamento) é a operação na qual uma fita elástica é cosida na extremidade do produto, e as sobras incluem fita curta, retalho de elástico e linha de costura industrial.

As embalagens primárias plásticas são filme de polietileno usado na proteção de cones de fio e bobinas de tubular, classe II A, com canal estabelecido de reciclagem de filme plástico industrial. A separação em relação a embalagens contaminadas com óleo de tear preserva o canal de retorno.

O refugo de tinturaria pré-malha ocorre em plantas com tinturaria de fios integrada, anterior à malharia. Quando presente, é classe I por causa do residual de corante e auxiliar têxtil, exigindo coprocessamento ou aterro classe I conforme caracterização.

O lodo ETE com fibras curtas corresponde ao flotado da estação de tratamento de efluentes, contendo fibras de algodão e poliéster, classe II A em geral, podendo migrar para classe I em função do corante remanescente da tinturaria integrada.

O óleo lubrificante de máquina circular é óleo mineral usado na engrenagem e nas guias do tear cilíndrico, classe I por característica de inflamabilidade e contaminação, com rota obrigatória de re-refino em operador licenciado.

Tabela de classificação e destinação por corrente

Corrente Origem na linha Classe NBR 10004 Destinação recomendada
Refilo pontas de malha Pontas do rolo após máquina circular II A Desfibramento têxtil / coprocessamento
Refugo tubular crú Defeito de pontos pré-tinturaria II A Reciclagem têxtil mecânica
Fios soltos Refugo de cone / alimentação tear II A Reciclagem têxtil por composição
Sucata agulhas máquina circular Quebra no entrelaçamento II A perfurocortante Reciclagem metálica especializada
Refugo costura ribeteamento meias Acabamento da boca da meia II A Coprocessamento / reciclagem têxtil
Embalagens primárias filme PE Proteção de cones e bobinas II A Reciclagem filme plástico industrial
Refugo tinturaria pré-malha Banho residual fios (subprocesso) I Coprocessamento / aterro classe I
Lodo ETE com fibras curtas Flotado tratamento efluentes II A / I Coprocessamento / compostagem
Óleo lubrificante tear circular Engrenagem e guias máquina I Re-refino licenciado

Rotas tecnológicas e racional de escolha

A escolha da rota reflete três variáveis: composição da fibra, contaminação cruzada e disponibilidade de operador licenciado. Para o refilo de pontas de malha, o desfibramento mecânico é a rota preferencial, especialmente quando o rolo de tubular crú está livre de corante. A condição pré-tinturaria preserva valor da fibra para retorno em forma de shoddy, aplicação em estofamento e isolamento. Quando a contaminação por óleo de tear existe, a alternativa é o coprocessamento em forno de cimento.

Para o refugo de tubular crú integral, a reciclagem têxtil mecânica é a rota dominante. A homogeneidade da corrente, característica da malharia bem segregada, é diferencial em relação à confecção, na qual a peça já costurada mistura linhas, etiquetas e fechos. Os fios soltos seguem a mesma lógica, com o ganho de já estarem em forma contínua, que facilita a alimentação direta de processo de reciclagem têxtil.

A sucata de agulhas é o ponto técnico singular do setor. Por ser metal endurecido perfurocortante, exige acondicionamento em recipiente rígido lacrado e rastreamento. A rota é reciclagem metálica especializada, distinta da sucata comum. O refugo de ribeteamento, embora compartilhe natureza têxtil com o refilo, traz mistura de fita elástica e linha de costura, que rebaixa o valor de reciclagem mecânica e direciona a corrente para coprocessamento.

O óleo lubrificante de máquina circular segue a rota consolidada de re-refino em operador licenciado. O refugo de tinturaria pré-malha, quando presente, recebe coprocessamento ou aterro classe I, com caracterização obrigatória.

Comparação contextual com setores correlatos têxteis

A leitura comparativa explica por que a malharia exige protocolo dedicado. A indústria têxtil técnica voltada a EPI trabalha tecido plano de alta tenacidade em peça pronta, distinto do tubular contínuo. A tinturaria e acabamento têxtil concentra-se no banho de cor de tecido formado, com lodo ETE intenso ausente da malharia crua. A fabricação de tapetes e carpetes usa tufting e sub-base SBR em rolo plano, longe do tubo cilíndrico. A indústria têxtil em panorama amplo agrega tecelagem, malharia e acabamento, enquanto este recorte foca a máquina circular. A fabricação de calçados trabalha couro, EVA e adesivos, de outra cadeia.

Aplicar protocolos pensados para tecido técnico, tinturaria pura, carpete ou calçado ao chão da malharia produz dimensionamento incorreto de coletores e enquadramento contratual deslocado. O acervo da Seven Resíduos aborda esses recortes com profundidade.

Conformidade regulatória e camadas setoriais

A correta classificação inicial conforme detalhado no guia prático da NBR 10004 é ponto de partida indispensável da gestão de malharia. A declaração anual no inventário CONAMA 313, descrita no guia de tipologias e inventário SINIR, alimenta o sistema federal de gestão e contempla a tipologia têxtil. Em São Paulo, o documento CADRI é exigência prévia para movimentação interestadual de classe I, como o óleo lubrificante de tear e o refugo de tinturaria pré-malha.

A camada federal é relevante para plantas de maior porte. O IBAMA mantém o Cadastro Técnico Federal e exige Relatório Anual (RAPP) para indústrias têxteis acima dos limiares. Em São Paulo, a CETESB opera o licenciamento, fiscaliza emissões e efluentes da tinturaria integrada quando a planta agrega tinturaria de fios. A interface entre licenciamento estadual, NBR 10004 e CONAMA 313 forma o esqueleto de conformidade.

Boas práticas de segregação na origem

A segregação na origem é instrumento poderoso para reduzir o custo da gestão na malharia. Recomenda-se baia dedicada para refilo de pontas por composição (algodão, poliéster, misto), baia distinta para refugo de tubular crú, contentor segregado para fios soltos por cone, recipiente rígido lacrado para sucata de agulhas, contentor para refugo de ribeteamento e tambor lacrado para óleo lubrificante usado. A capacitação da equipe de tear, ribeteamento e manutenção é parte inseparável dessa estratégia.

A gestão das embalagens contaminadas com óleo de tear, abordada no guia de embalagens contaminadas Classe I, deve manter separação rígida das embalagens limpas em filme PE. Indicadores de geração — quilo de refilo por rolo de tubular crú, quilo de fios soltos por cone consumido, índice de quebra de agulha por mil horas de tear — transformam a gestão em alavanca de eficiência e direcionam investimento em ajuste de tensionamento e manutenção preventiva.

A operação de tubular crú, por estar livre de corante, é vantagem competitiva da malharia sobre a tinturaria integrada para retorno do refugo à reciclagem têxtil. Conteúdo complementar está disponível no portal da Seven Resíduos.

Perguntas frequentes

1. O refugo de tubular crú vale mais que o refugo de malha já tinta?

Sim, sob a perspectiva de reciclagem têxtil mecânica. A ausência de corante e auxiliar de tinturaria no tubular crú preserva a fibra para desfibramento e produção de shoddy, com retorno em estofamento e isolamento. O refugo já tinto, por carregar pigmento, tem leque de aplicação mais restrito.

2. A sucata de agulhas de máquina circular pode ir junto com a sucata metálica comum?

A mistura é desaconselhada. Por serem perfurocortantes em pequena dimensão, as agulhas exigem acondicionamento rígido lacrado, identificação visível e rota de reciclagem metálica especializada, com rastreabilidade documental. A mistura com sucata comum cria risco operacional na coleta e na separação posterior.

3. O refilo de pontas de malha mista (algodão e poliéster) tem rota de reciclagem?

Sim, com ressalvas. O desfibramento mecânico aceita misturas e produz shoddy de qualidade técnica adequada a estofamento e isolamento, mas a separação prévia por composição amplia o leque de aplicação, com retorno em fibra reciclada para a própria cadeia têxtil. O coprocessamento é alternativa universal quando a homogeneidade não é viável.

4. O óleo lubrificante de tear cilíndrico segue a mesma rota do óleo de motor automotivo?

A rota técnica é a mesma — re-refino em operador licenciado classe I. A diferença está na frequência de troca e no volume gerado, em geral menor por máquina, o que demanda consolidação no almoxarifado de manutenção até atingir lote mínimo de coleta. O acondicionamento em tambor lacrado e a rotulagem conforme NBR são exigência regulatória.

5. A malharia precisa de PGRS quando opera apenas tubular crú e sem tinturaria integrada?

Sim. A obrigação do Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos não depende de existir tinturaria integrada, mas do enquadramento da atividade e do porte da empresa frente ao licenciamento ambiental estadual. A geração de refilo, fios soltos, agulhas e óleo lubrificante já configura escopo de PGRS para a planta de malharia circular.

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