O Brasil produz cerca de 800 milhões de pares de calçados por ano, e cada par deixa para trás aproximadamente 220 gramas de resíduo. A conta fecha em torno de 213 mil toneladas anuais saindo das linhas de corte, pesponto e montagem em Franca, Birigui, Jaú e no Vale dos Sinos. Se você é gestor industrial em uma fábrica de tênis, sapatos, sandálias ou EPIs, sabe que o problema não é a quantidade — é a variedade. Apara de couro acabado, retalho de EVA, refugo de PU, agulhas quebradas, lata de cola sapateiro: cada um exige uma rota diferente. Este guia mostra como classificar segundo a NBR 10004 e como estruturar a destinação sem improviso. Para uma visão geral da gestão de resíduos industriais, consulte a Seven Resíduos.
Por que calçados (fabricação) tem gestão diferente do curtume
A primeira confusão que aparece em auditoria é tratar fábrica de calçado como se fosse curtume. Não é. O curtume processa couro bruto: recebe pele salgada, faz banhos de cromo, gera lama de cromo, banho residual com cromo trivalente e hexavalente em concentrações elevadas, lodo de ETE com carga orgânica pesada. É uma indústria química disfarçada de processadora animal. Tratamos esse caso em detalhe no post sobre resíduos de curtume.
A fábrica de calçado, por outro lado, recebe o couro já curtido, recurtido e acabado. O cromo já está fixado na fibra colagênica. A apara que sobra na mesa de corte ainda contém cromo residual — e por isso continua sendo Classe I —, mas o risco químico vivo desapareceu. O que sobra de relevante na fábrica de calçado são três famílias de resíduo: solventes adesivos (cola sapateiro), perfurocortantes do pesponto e refugos poliméricos do solado (EVA, PU, TR, PVC).
Outra diferença operacional importante: o calçadista é sazonal. Uma fábrica de Franca ou Birigui que pede coleta quinzenal em junho passa a precisar de coleta semanal em setembro porque os pedidos de Natal entram. O contrato de gestão de resíduos precisa prever flutuação de frequência, senão acumula material em galpão e gera passivo de armazenamento.
Por fim, calçadista trabalha com células pequenas espalhadas. Uma planta de tênis no Vale dos Sinos pode ter dezenas de bancadas de pesponto, cada uma com sua caixa de coleta. Logística interna é parte do problema — não basta resolver o destino externo.
Tabela mestre: resíduos por etapa e classe NBR
A tabela abaixo cobre as oito famílias mais relevantes encontradas numa fábrica calçadista típica, com a classificação NBR 10004 e o destino recomendado:
| Etapa | Resíduo | Classe NBR 10004 | Destinação recomendada |
|---|---|---|---|
| Corte | Aparas de couro acabado | Classe I | Coprocessamento cimenteiro |
| Corte | Retalho sintético (PU/PVC laminado) | Classe II-A | Reciclagem ou coprocessamento |
| Pesponto | Agulhas, lâminas de chanfradeira | Grupo E (RDC 222/2018) | Coletor rígido amarelo, incineração |
| Pesponto | Refugo têxtil, linhas, fitilhos | Classe II-A | Reciclagem têxtil ou aterro classe II |
| Montagem | Cola sapateiro, embalagens contaminadas | Classe I | Coprocessamento ou incineração |
| Solado | Refugo de EVA, PU, TR | Classe II-A | Reciclagem (moagem e retorno) |
| Acabamento | Tintas, vernizes, panos contaminados | Classe I | Coprocessamento ou incineração |
| Manutenção | Óleo lubrificante, estopa contaminada | Classe I | Rerrefino (óleo) e coprocessamento |
| Geral | EPI contaminado com cola/solvente | Classe I | Coprocessamento |
| Geral | Embalagens limpas (papelão, plástico) | Classe II-A | Reciclagem |
A tabela tem dez linhas, é o limite operacional. Resíduos como pó de lixamento de solado, frascos de tinta vazios e lodo de cabine de pintura existem, mas seguem a mesma lógica das classes acima — você classifica pelo princípio, não pelo subitem.
Aparas de couro acabado e retalho sintético
A apara de couro acabado é o resíduo de maior volume no corte. Vem em formatos irregulares depois que o operador balanceia as facas de corte para aproveitar o máximo de área da pele. O que sobra varia entre 18% e 30% da pele inteira dependendo da modelagem.
A classificação NBR é Classe I por cromo residual. Mesmo que o cromo esteja fixado na fibra, ainda aparece em ensaio de lixiviação acima dos limites. Isso significa: não vai para aterro classe II e não pode ser misturado a resíduo comum. O destino correto na maioria dos casos é coprocessamento em forno de cimento, onde a matéria orgânica entra como combustível alternativo e o cromo se incorpora à matriz mineral do clínquer.
Para o retalho sintético — PU laminado, PVC e microfibras — a classificação geralmente fica em Classe II-A. Há iniciativas brasileiras de reciclagem mecânica que moem o material e o reincorporam como matéria-prima de solado novo, com bons resultados de desempenho mecânico. Quando o gerador não tem acordo com reciclador, o caminho é coprocessamento.
Uma pegadinha comum: misturar apara de couro com retalho sintético na mesma caçamba. Isso contamina o sintético com cromo e faz o lote inteiro virar Classe I. Segregação na origem economiza dinheiro real.
Solventes adesivos: cola sapateiro e seus parentes
A cola sapateiro é o resíduo de maior risco numa fábrica de calçado. A formulação clássica combina borracha sintética (neoprene) dissolvida em solventes orgânicos: tolueno, acetona, hexano, acetato de etila e MEK (metil-etil-cetona). Cada um desses solventes tem ponto de fulgor baixo, é inflamável e tem efeitos neurotóxicos.
Do ponto de vista NBR, qualquer resíduo contendo esses solventes é Classe I — por inflamabilidade, toxicidade e em alguns casos reatividade. Isso vale para a cola residual, latas vazias com fundo de cola, estopas usadas para limpar pincéis, brochas descartadas e o EPI saturado do operador. Tudo entra na mesma rota.
A fiscalização da CETESB e dos órgãos estaduais tem apertado especificamente nesta família de resíduo, porque é onde mais aparecem casos de descarte irregular: lata de cola vai para o lixo comum, estopa volta como pano de chão, ninguém percebe. Detalhamos o tema no guia sobre descarte de solventes industriais.
A boa notícia é que a indústria está migrando para colas em base aquosa, principalmente nas linhas de exportação. Não elimina o passivo, mas reduz volume e perigo de incêndio em galpão.
Perfurocortantes na linha de pesponto
Agulha quebrada parece bobagem, mas no agregado é um problema sério. Uma máquina de pesponto industrial troca agulha várias vezes por turno. Numa fábrica média de Birigui com 80 operadores, isso vira centenas de agulhas quebradas por dia. Some lâminas de chanfradeira, alfinetes, grampos e pregos descartados.
O enquadramento desse resíduo é peculiar. Embora a NBR 10004 não use a expressão “perfurocortante”, a RDC ANVISA 222/2018 — escrita para a saúde, mas adotada por analogia em ambiente industrial — classifica como Grupo E. O destino é recipiente rígido amarelo, identificado, com tampa, preenchido até no máximo dois terços, e encaminhado para incineração ou autoclavagem.
Misturar agulha com refugo têxtil é a falha mais comum. Quando isso acontece, o lote inteiro é reclassificado para baixo da escada de risco — quem manuseia depois corre risco de acidente. Mais sobre isso no post de perfurocortantes em indústrias. O mesmo princípio aparece em outros setores que cortam matéria-prima fina, incluindo a indústria de borracha.
Como estruturar a gestão: SOP, KPIs e PGRS
Estruturar gestão de resíduos numa fábrica calçadista passa por quatro camadas, e nenhuma é dispensável.
A primeira é o PGRS — Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos. Não é um documento decorativo: é onde você descreve cada resíduo gerado, seu volume, sua classe, seu destino e o responsável interno. A CETESB e os órgãos municipais pedem o PGRS no licenciamento. O passo a passo está no nosso post sobre elaboração de PGRS industrial.
A segunda camada é a SOP — procedimento operacional padrão de segregação. Cada bancada precisa saber, sem ambiguidade, o que vai em cada caixa. Cor, etiqueta, foto. Operador novo aprende em meia hora se a sinalização estiver bem feita.
A terceira camada são os KPIs de geração. Quilos de apara de couro por mil pares produzidos. Litros de cola descartada por turno. Número de coletores Grupo E enviados por mês. Sem esses números, você não consegue defender investimento em redução nem identificar células com desvio de processo.
A quarta camada é o contrato com o gestor de resíduos. Tem que prever sazonalidade (semanal em pico, quinzenal em baixa), tem que cobrir todas as classes geradas (Classe I, Classe II-A, Grupo E) e tem que entregar MTR — Manifesto de Transporte de Resíduos — em sistema digital. Veja como funciona nosso serviço de coleta de resíduos industriais em SP e a página da Seven Resíduos para entender o escopo. Empresas como Grendene, Alpargatas, Vulcabras, Beira Rio e Pampili já operam com esse nível de estruturação — o restante do setor está se ajustando.
Segundo dados da Abicalçados, 95% das empresas do setor já fazem destinação ambientalmente correta. A pergunta não é mais “preciso?” — é “estou fazendo do jeito mais eficiente?”.
Perguntas frequentes
1. Apara de couro acabado é Classe I como apara cromada bruta do curtume? Sim, ambas são Classe I, mas por motivos diferentes. A apara de wet-blue do curtume traz cromo ainda mobilizável e carga orgânica fresca. A apara de couro acabado tem cromo residual fixado, mas ainda lixivia acima do limite. A rota prática (coprocessamento) acaba sendo a mesma na maioria dos casos.
2. Solvente adesivo de calçado é Classe I sempre? Sim. Cola sapateiro com base solvente é Classe I por inflamabilidade. Mesmo a versão em base aquosa, quando contém resinas e aditivos contaminantes, costuma ser classificada Classe I por toxicidade. Faça caracterização específica do seu fornecedor.
3. Indústria calçadista precisa de PGRS? Sim. A PNRS (Lei 12.305/2010) exige PGRS de qualquer estabelecimento industrial, e a CETESB pede no licenciamento ambiental em SP. O documento precisa ser revisado periodicamente conforme mudança de processo ou volume.
4. Agulhas de pesponto são perfurocortantes Grupo E? Operacionalmente sim. A RDC ANVISA 222/2018 foi escrita para a saúde, mas o enquadramento Grupo E é adotado por analogia para perfurocortantes industriais, com coletor rígido amarelo e destino para incineração.
5. EVA e PU podem ser reciclados? Sim. EVA é reciclado por moagem e reincorporação no mix de injeção — a Braskem já lançou grades comerciais com EVA reciclado. PU tem reciclagem mais limitada, mas há rotas mecânicas em desenvolvimento. TR e PVC laminado também podem virar matéria-prima de solado novo.
Quer estruturar a gestão de resíduos da sua fábrica de calçado em Franca, Birigui ou Vale dos Sinos com classificação NBR correta, MTR digital, rastreabilidade da destinação e contrato com flexibilidade de frequência de coleta? Solicite um orçamento e converse com nosso time técnico para uma avaliação personalizada da sua operação. Fontes regulatórias para consulta: PNRS no Planalto, CETESB resíduos e a página institucional da Seven Resíduos com a relação completa de serviços de gestão e destinação ambiental para o setor industrial.



