O polo de Santa Gertrudes, em São Paulo, concentra cerca de 70% da produção nacional de revestimentos cerâmicos, enquanto Mogi Guaçu lidera em cerâmica vermelha e Criciúma abriga gigantes como Eliane, Portobello e Cecrisa. Cada forno aceso nessas plantas gera uma combinação única de resíduos: refratários gastos, finos de atomização, esmaltes com chumbo, lodos de ETE e refugos cozidos. Este guia explica a classificação NBR 10004 e a destinação correta de cada fluxo, com foco na produção industrial — não em obra civil. Para uma visão geral da gestão de resíduos do seu negócio, comece por Seven Resíduos.
Por que a indústria cerâmica tem gestão diferenciada (e não é RCC de obra)
Existe uma confusão recorrente entre dois universos. De um lado, o resíduo de construção civil (RCC) gerado em canteiro de obra, regido pela Resolução CONAMA 307 e pelas classes A, B, C e D — assunto que detalhamos no artigo sobre resíduos de construção civil. De outro lado, o resíduo da produção industrial cerâmica: aquilo que sai da fábrica de azulejo, porcelanato, refratário ou cerâmica vermelha durante a fabricação. São fluxos completamente distintos em volume, composição e destinação.
A produção cerâmica industrial mistura argila, fundentes, esmaltes e pigmentos em processos de queima a até 1.250 °C. Surgem refugos verdes, refugos cozidos, refratários degradados, poeiras de atomização, lodos de tratamento de efluentes e embalagens contaminadas com pigmentos de chumbo ou cádmio. A classificação correta segue a ABNT NBR 10004 (revisão de 2024), e a destinação obedece à Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010). Sem esse recorte, o PGRS da fábrica fica genérico e a CETESB não aprova.
Outro ponto crítico é o volume. Uma planta de revestimentos de porte médio gera entre 200 e 500 toneladas mensais de refugo cozido, 30 a 80 toneladas de finos de atomização e até 15 toneladas de lodo de esmalte por ano. Isso equivale a centenas de caminhões saindo da fábrica em rotina. Tratá-los como entulho de obra significa pagar por destinação Classe I onde caberia Classe II-A, ou pior, misturar fluxos perigosos com inertes e contaminar o conjunto. A análise por etapa do processo, como veremos a seguir, é o que evita esse erro estrutural e protege o licenciamento ambiental — um trabalho que a Seven Resíduos executa em fábricas do polo paulista.
Tabela mestre: 14 resíduos por etapa e Classe NBR
A produção cerâmica pode ser dividida em seis etapas, cada uma com resíduos típicos. Esta tabela é o ponto de partida para qualquer plano de gestão.
Preparação da massa – Argila fora de especificação e finos de atomização — Classe II-A (não inerte) – Poeira de moinhos e silos captada em filtros manga — Classe II-A – Embalagens de aditivos (defloculantes, ligantes) — Classe II-B se isenta de contaminação
Conformação (prensagem ou extrusão) – Refugo verde (peça crua) — Classe II-A, alta taxa de reuso interno na própria massa – Pó da cabine de prensa — Classe II-A, retorno ao silo
Queima (forno túnel ou rolos) – Refugo cozido sem esmalte — Classe II-B (inerte) – Refratários gastos do revestimento do forno — Classe II-A; II-B/I quando contém cromita – Cinzas e fuligem de caldeira a biomassa — Classe II-A
Esmaltação e decoração – Lodo de esmalte com chumbo (Pb) ou cádmio (Cd) — Classe I (perigoso) – Embalagens contaminadas com pigmentos metálicos — Classe I – Telas de serigrafia descartadas — Classe I quando há resíduo de tinta cerâmica
Estação de Tratamento de Efluentes – Lodo de ETE da esmaltação — Classe I se Pb/Cd lixiviáveis acima do limite – Lodo de ETE da preparação de massa — Classe II-A
Manutenção – Óleos lubrificantes usados, estopas e EPIs contaminados — Classe I
Essa estrutura cobre 90% do volume gerado em uma fábrica média de revestimentos. Para implementar a coleta dentro do polo paulista, a coleta de resíduos industriais em SP cobre desde Mogi Guaçu até Limeira e Santa Gertrudes.
Refratários gastos: classe NBR e rota de reciclagem em forno de clínquer
Os refratários revestem fornos cerâmicos por dentro e suportam choque térmico até a queima de porcelanato técnico a 1.250 °C. Os tipos mais comuns no setor são alumina, sílica, mulita e cordierita. Após esgotamento, a peça é removida em manutenção programada e vira resíduo sólido.
Na maioria dos casos, refratários gastos cerâmicos são Classe II-A, porque os elementos críticos da NBR 10004 não aparecem em concentração relevante. Quando há contaminação por cromita ou metais pesados aderidos a partir do esmalte, a fração específica passa a Classe I. O ensaio de lixiviação NBR 10005 é decisivo.
A rota mais nobre é a reciclagem. A RHI Magnesita reaproveitou cerca de 30 mil toneladas de refratários no Brasil em 2023, evitando 47 mil toneladas de CO₂ — o material limpo, britado e estabilizado retorna para a produção de novos refratários. A segunda rota é o coprocessamento: a planta da Votorantim Cimentos em Salto de Pirapora opera o forno de clínquer a 1.450 °C e aceita refratários II-A como insumo direto, com alumina e sílica integrando o produto final. Aterro Classe II-A é o último recurso, com custo crescente.
Esmaltes e pigmentos com chumbo ou cádmio: por que são Classe I
O esmalte cerâmico contém fritas, pigmentos inorgânicos e veículos. Cores intensas — amarelo, laranja, vermelho profundo — historicamente dependem de chumbo e cádmio. Mesmo com a tendência de substituição por pigmentos isentos, muitas fábricas ainda operam linhas com Pb/Cd para coleções premium.
Pelo Anexo F da NBR 10004, chumbo e cádmio são constituintes perigosos por toxicidade. Qualquer resíduo com presença confirmada acima dos limites entra em Classe I e exige destinação a coprocessamento, incineração de Classe I ou aterro industrial licenciado. Isso vale para lodo de ETE da esmaltação, embalagens vazias de pigmentos, telas de serigrafia, estopas de limpeza de discos e refugo de peça esmaltada moída em pó (a forma mais lixiviável).
A norma ABNT NBR 13818, Anexo P, complementa o controle ao limitar liberação de Pb/Cd em placas para contato com alimentos. No fluxo de resíduo, porém, o que decide é o teste de lixiviação NBR 10005 e o ensaio de solubilização NBR 10006. Se a peça inteira (não em pó) passa nos dois ensaios, o refugo cozido esmaltado pode ser Classe II-A. Em pó ou moído, a tendência é falhar e cair em Classe I. Por isso, a logística interna importa: quebrar o refugo só após classificar muda o custo de destinação. A operação correta de fluxos perigosos exige um parceiro com licença plena, como uma empresa de serviço de resíduos Classe I.
Lodos de ETE de esmaltação e refugos cozidos: separar é economizar
A ETE da fábrica recebe efluentes da preparação de massa, da esmaltação e da limpeza geral. Misturar tudo no mesmo decantador é o erro mais caro do setor: o lodo final fica Classe I por contaminação cruzada de Pb/Cd, mesmo que 80% do volume venha da massa (Classe II-A).
Quem segrega ETEs paga muito menos. A configuração ideal tem dois sistemas: um para água de massa (recircula direto na produção) e outro para esmaltação (com floculação química e teste de lixiviação no lodo). Estudos publicados na Revista Cerâmica Industrial mostram que o lodo de ETE de revestimentos pode ser reincorporado em fritas e em massa de cerâmica vermelha quando devidamente caracterizado, transformando passivo em insumo.
O refugo cozido sem esmalte é Classe II-B na maioria dos casos. Britado, vira matéria-prima para base de pavimentação, agregado leve, contrapiso ou retorno parcial à própria massa como chamote. Empresas que valorizam esse fluxo reduzem em 40-60% o custo de destinação externa. Para enxergar essas oportunidades em cenário B2B amplo, vale comparar com setores próximos, como discutido em resíduos da indústria automotiva, que vive desafio análogo de segregação Classe I × Classe II.
Como estruturar a gestão: PGRS, SOP, frequência e KPIs
Toda fábrica cerâmica com Licença de Operação CETESB precisa de PGRS — Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos. O conteúdo mínimo está no nosso guia de PGRS industrial passo a passo, e abrange caracterização (LCR por resíduo), volumes mensais, armazenamento, transporte, destinação e responsáveis. O PGRS deve ser revisado quando há mudança de pigmento, fornecedor de esmalte, novo produto ou alteração de ETE.
O SOP operacional define onde cada resíduo é segregado, em qual bombona ou bag, com qual etiqueta e em que frequência é retirado. Sugestão para fábrica média de 50 mil m²/mês de revestimento: – Refugo verde e finos: retorno diário à massa – Refugo cozido: caçamba estacionária, retirada quinzenal – Refratário gasto: parada anual de manutenção, retirada por evento – Lodo de ETE de esmaltação: bag de 1 m³, retirada mensal Classe I – Embalagens de pigmento: bombona 200 L, retirada mensal Classe I – Óleo usado: tambor 200 L, retirada trimestral
Os KPIs essenciais são: percentual de valorização (reciclado + coprocessado / gerado), custo médio por tonelada destinada, percentual de Classe I sobre o total, tempo médio de armazenamento (não pode passar de 12 meses para perigosos) e índice de aderência ao PGRS auditado. Companhias que estruturam esses indicadores com apoio de consultoria em gestão de resíduos industriais SP costumam reduzir 25-35% o custo total no primeiro ciclo de gestão estruturada.
A governança dessa rotina exige reuniões mensais entre produção, qualidade, manutenção e meio ambiente, com revisão de manifestos de transporte (MTR), certificados de destinação final (CDF) e atualização de LCR. Mais sobre o ecossistema completo está em Seven Resíduos e nas referências oficiais do Guia Técnico Ambiental MMA e da Cartilha Ambiental Cerâmica Vermelha.
Perguntas frequentes sobre resíduos cerâmicos
1. Refugo cozido cerâmico é Classe I ou II-B? Refugo cozido sem esmalte é Classe II-B (inerte) na grande maioria dos casos, após queima a 1.000-1.250 °C. Quando esmaltado com pigmentos de chumbo ou cádmio e moído em pó, passa a ser ensaiado por lixiviação (NBR 10005) e pode reclassificar para Classe I.
2. Refratários gastos podem ser reaproveitados? Sim. Refratários II-A são reciclados pela RHI Magnesita (30 mil t/ano no Brasil) ou destinados a coprocessamento em forno de clínquer, como na planta Votorantim em Salto de Pirapora a 1.450 °C, onde alumina e sílica entram na composição do cimento.
3. Indústria cerâmica precisa de PGRS? Sim. Toda fábrica com Licença de Operação CETESB é obrigada a manter PGRS atualizado, com Laudo de Caracterização de Resíduos por fluxo. A revisão é exigida quando há mudança de insumo, fornecedor, produto ou configuração da ETE, sob pena de auto de infração.
4. Esmalte com chumbo é Classe I sempre? Sim quando há Pb ou Cd acima dos limites do Anexo F da NBR 10004. Vale para lodo de ETE de esmaltação, embalagens de pigmento, telas de serigrafia e refugo esmaltado moído. Coprocessamento, incineração Classe I ou aterro industrial são os destinos válidos.
5. Posso reusar argila não cozida no processo? Sim. Refugo verde, finos de atomização e pó de cabine de prensa retornam diretamente à massa, sem perda de qualidade. É a forma mais barata de reduzir o volume Classe II-A enviado a destino externo, com ganho ambiental e financeiro imediato.
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