A produção industrial de chás secos, chás solúveis, mate solúvel e sachês envolve uma cadeia de transformação que vai da recepção da folha de erva-mate ou de Camellia sinensis até o envase em sachê para o consumidor final. Plantas como as de Leão Alimentos (controlada pela Coca-Cola Brasil), Mate Couro, Matte Leão, Twinings Brasil e Lipton Brasil operam linhas que combinam seleção óptica, moagem, extração, secagem por atomização e envase em sachê multilayer (saquinho de papel + filme plástico + fita de selagem). Cada uma dessas etapas gera correntes de resíduos com características próprias, e a classificação correta dessas correntes é a base de toda a destinação ambientalmente adequada.
Este guia foi elaborado para gestores de produção, supervisores de qualidade e responsáveis ambientais de indústrias do segmento de chá, mate e infusões. O objetivo é apresentar, de forma informativa, como classificar cada tipo de resíduo gerado, quais são as destinações tecnicamente compatíveis e como organizar a documentação exigida pela legislação ambiental brasileira, em consonância com a Política Nacional de Resíduos Sólidos e com as diretrizes de órgãos como o MAPA e a ANVISA.
A cadeia produtiva de chá, mate e infusões
A operação industrial começa com a recepção da matéria-prima vegetal seca, geralmente folhas e talos de erva-mate, chá-preto, chá-verde, camomila, hortelã, capim-cidreira ou outras plantas de infusão. A primeira etapa é a seleção óptica, que separa folhas íntegras de folhas queimadas, talos lenhosos e materiais estranhos. Esse refugo de seleção é a primeira corrente de resíduo orgânico significativa.
Em seguida, a moagem ajusta a granulometria à finalidade do produto: pedaços maiores para chás de infusão direta, pó fino para sachês individuais e pó muito fino para extração industrial. A moagem fina libera material particulado que se acumula em filtros de manga e em pisos próximos aos moinhos. Esse pó é classificado como ATEX (atmosfera explosiva por suspensão de pó), uma condição operacional que exige aterramento elétrico, exaustão dedicada e armazenamento em recipientes específicos.
Para produtos descafeinados, parte da matéria-prima passa pela extração CO2 supercrítica, processo no qual o gás carbônico é submetido a alta pressão e temperatura controlada para se comportar como um solvente capaz de retirar a cafeína sem deixar resíduo de solvente químico. O subproduto dessa operação é uma borra vegetal úmida, livre de cafeína, que constitui resíduo orgânico de alta carga.
Já a fabricação de chá solúvel e mate solúvel envolve extração aquosa, concentração e secagem por atomização. O resíduo principal é a borra de extração, biomassa esgotada após a retirada dos compostos solúveis. No envase, o produto vai para sachê multilayer ou para flow-pack secundário, gerando aparas de filme, refugos de bobina e cartonagem da embalagem terciária.
Tabela: classificação e destinação por tipo de resíduo
| Tipo de resíduo | Origem na fábrica | Classe NBR 10004 | Destinação recomendada |
|---|---|---|---|
| Refugo de folhas e talos | Seleção óptica | IIA | Compostagem industrial ou coprocessamento |
| Pó fino de moagem (ATEX) | Filtros de manga, exaustão | IIA | Coprocessamento com cautela ATEX |
| Borra da extração CO2 supercrítica | Descafeinização | IIA | Compostagem ou ração animal |
| Borra de extração de solúvel | Extração aquosa | IIA | Biodigestão ou compostagem |
| Sachê multilayer descartado | Envase primário | IIA | Coprocessamento (não-reciclável padrão) |
| Refugo de filme flow-pack | Envase secundário | IIA | Reciclagem mecânica de filme |
| Lodo ETE com taninos | Tratamento de efluente | IIA | Coprocessamento ou aterro Classe II |
| Óleos extraídos e essências | Linha de aromas | I ou IIA | Rerrefino ou incineração controlada |
| Cartonagem de envase | Envase terciário | IIA | Reciclagem de papel |
A tabela acima reflete a operação típica de uma planta integrada que realiza recepção, seleção, moagem, extração, secagem e envase. Plantas mais simples, dedicadas apenas ao envase de chá importado em sachê, podem ter perfil de geração concentrado apenas nas três últimas linhas, com predominância absoluta de embalagens. Já plantas de mate solúvel apresentam volume expressivo de borra de extração e lodo de ETE, exigindo planejamento logístico mais robusto para coleta e destinação. A escolha das rotas finais depende da disponibilidade de destinadores licenciados na região da unidade industrial, da matriz de transporte disponível e do contrato de longo prazo entre o gerador e o operador de destinação.
Pontos críticos da classificação
A classificação de cada corrente segue a NBR 10004, que separa resíduos em Classe I (perigosos), Classe IIA (não inertes) e Classe IIB (inertes). A maioria das correntes da indústria de chá é Classe IIA, mas existem três pontos de atenção que merecem destaque na elaboração do PGRS.
O primeiro ponto é o lodo do tratamento de efluentes. As infusões liberam taninos, compostos vegetais responsáveis pelo sabor adstringente, que se concentram no lodo após a etapa biológica da estação de tratamento. Esse lodo apresenta elevada carga orgânica e demanda química de oxigênio acima da média de outras agroindústrias, o que limita sua aplicação direta no solo e impõe rota de coprocessamento ou aterro Classe II licenciado.
O segundo ponto é a embalagem primária sachê multilayer. Embora visualmente pareça papel, o sachê é uma estrutura composta por papel filtrante, filme termosselável e fita de costura, geralmente com grampo metálico e etiqueta. Essa combinação não tem rota de reciclagem mecânica padrão no Brasil, e a destinação consagrada é o coprocessamento, no qual o sachê funciona como combustível alternativo em fornos de cimento.
O terceiro ponto é o pó fino de moagem. Pó vegetal seco em suspensão configura ATEX e exige procedimentos de movimentação cuidadosos: bombonas aterradas, transporte sem geração de centelha e armazenamento ventilado. Do ponto de vista da classificação, o pó é Classe IIA, mas a emissão do MTR deve descrever o risco físico para que o transportador adote o veículo correto.
A correta caracterização de cada corrente também influencia o planejamento de armazenamento temporário dentro da fábrica, com bombonas, big-bags ou caçambas dimensionadas pela frequência de coleta contratada e pelo volume médio gerado em uma jornada de produção.
Documentação ambiental exigida
Toda indústria de chá e mate licenciada na CETESB ou em órgão ambiental estadual equivalente deve manter o PGRS atualizado, com inventário de geração, mapa de pontos de geração, fluxograma de manuseio interno e contratos com transportadores e destinadores licenciados. Cada movimentação de resíduo industrial precisa ser acompanhada do MTR (Manifesto de Transporte de Resíduos) emitido no SIGOR ou no SINIR, conforme a unidade da federação.
Para resíduos orgânicos com potencial de aproveitamento como ração animal, é necessária autorização específica do MAPA, com registro do estabelecimento e laudos periódicos. A ANVISA também regula o destino de resíduos quando há contaminação cruzada com produtos farmacêuticos ou cosméticos, situação que pode ocorrer em plantas multipropósito. A consulta ao licenciamento ambiental e ao plano de emergência também faz parte da documentação obrigatória.
Diferenças em relação a outras agroindústrias
A indústria de chá apresenta semelhanças com outras operações do cluster agroindustrial, mas guarda particularidades. Comparada com a indústria de café e torrefação, a operação de chá tem menor geração de palha e maior geração de borra fina. Em relação à panificação industrial, o resíduo de chá não envolve gordura saturada nem farinhas, mas sim biomassa rica em taninos. Já frente à indústria de bebidas não-alcoólicas, o segmento de chá lida com matéria-prima seca antes do envase final, enquanto bebidas trabalham predominantemente com líquido pronto.
A diferença mais marcante, porém, está na descafeinização por CO2 supercrítico. Essa operação é praticamente exclusiva de plantas de chá premium e de café especial e gera uma borra vegetal específica que, por estar livre de solvente químico residual, abre rotas de compostagem e até de uso em ração que outras descafeinizações tradicionais não permitem.
Outra particularidade da indústria de chá é a sazonalidade da matéria-prima. A safra da erva-mate concentra-se entre maio e setembro, e a entrada intensa de folha verde no pátio gera picos de geração de refugo de seleção e de pó fino. O dimensionamento da gestão de resíduos precisa considerar essa variação anual, com contratos que prevejam volumes mínimos garantidos e janelas de coleta extras nos meses de pico.
Como a Seven Resíduos atua
A Seven Resíduos atende geradores industriais do interior paulista com soluções de gestão de resíduos sólidos industriais. Para a cadeia de chá, mate e infusões, a operação inclui caracterização das correntes, definição da rota de destinação licenciada, emissão e arquivamento de MTR, e fornecimento de Certificados de Destinação Final (CDF). A atuação da Seven é restrita a resíduos industriais e a obrigações empresariais decorrentes da PNRS, sem envolvimento com coleta de resíduos sólidos urbanos domiciliares.
Para conhecer o portfólio completo de serviços e regiões atendidas, acesse a página principal da Seven Resíduos, o blog técnico e o canal de contato comercial.
FAQ — Resíduos da indústria de chá, mate e infusões
1. O sachê multilayer pode ser reciclado junto com o papel comum?
Não. A combinação de papel filtrante, filme termosselável e fita de costura impede a separação na linha de reciclagem padrão de papel. A destinação consagrada para sachê multilayer pós-industrial é o coprocessamento em forno de cimento.
2. A borra de extração CO2 supercrítica pode virar ração animal?
Em condições específicas, sim. Como a descafeinização por CO2 não deixa solvente químico residual, a borra é vegetal pura. A destinação para ração depende de autorização do MAPA, registro do estabelecimento e laudos de ausência de contaminantes.
3. O pó fino de moagem realmente representa risco de explosão?
Sim. Qualquer pó orgânico seco em suspensão pode formar atmosfera explosiva (ATEX) se a concentração no ar atingir o limite inferior de explosividade. A prevenção exige aterramento, exaustão dedicada e procedimentos de movimentação sem geração de centelha.
4. O lodo ETE com taninos pode ser aplicado no solo agrícola?
A aplicação direta não é recomendada. A elevada concentração de taninos pode inibir a microbiota do solo e prejudicar culturas. A destinação preferencial é coprocessamento ou aterro Classe II licenciado, sempre com avaliação técnica caso a caso.
5. A Seven Resíduos faz coleta de lixo urbano da cidade onde fica a fábrica?
Não. A Seven atua exclusivamente com resíduos sólidos industriais de empresas geradoras, dentro do escopo da PNRS. A coleta de resíduos sólidos urbanos domiciliares é responsabilidade da prefeitura municipal.



