A indústria brasileira de papel e celulose — liderada por Suzano, Klabin, Bracell e Lwarcel — é uma das mais sofisticadas do mundo em recuperação de químicos e energia, mas ainda gera um portfólio amplo de resíduos sólidos que precisam de classificação e destinação criteriosas. Black liquor, dregs, grits, white mud, lodo de ETE primário e biológico, finos celulósicos, cinzas de caldeira e refugo aparecem em etapas diferentes do processo Kraft e respondem por exigências distintas perante a NBR 10004, a Política Nacional de Resíduos Sólidos e os órgãos licenciadores como CETESB, IAT e FEPAM. Este guia da Seven Resíduos sistematiza a classificação por etapa de processo e a destinação técnica viável.
Por que papel e celulose tem gestão diferenciada
A indústria de celulose Kraft opera em ciclo químico fechado — algo raro em outros setores manufatureiros. O black liquor, gerado no cozimento da madeira, não é descartado: ele é evaporado, queimado em caldeira de recuperação para gerar vapor e energia elétrica, e seus minerais são regenerados em um circuito que devolve o licor branco ao digestor. Esse desenho faz com que mais de 97% dos químicos de cozimento sejam recuperados, e cerca de 90% da eletricidade consumida em fábricas modernas venha da queima de black liquor e biomassa florestal.
Apesar dessa eficiência, o processo gera resíduos sólidos importantes em volume e em diversidade química: dregs e grits do circuito de recuperação, lama de cal excedente, lodo primário e biológico de ETE, cinzas de caldeira de biomassa, refugo de papel e knots do digestor. Cada um desses fluxos tem perfil físico-químico próprio, classificação diferente pela NBR 10004 e rotas de destinação que vão de aterro Classe IIA a corretivo agrícola, agregado em construção civil e coprocessamento em forno de cimento.
A maturidade do setor é alta — e o conteúdo da Seven Resíduos acompanha essa evolução: a Klabin reportou 99,3% de reaproveitamento/reciclagem de resíduos sólidos em 2023, com meta KODS de zero aterro até 2030, segundo seu Relatório de Sustentabilidade. A Suzano consolida indicadores GRI 306 em sua Central de Sustentabilidade, e a Bracell-Lwarcel destaca uso agrícola de dregs/grits em fornecedores rurais de Lençóis Paulista. Esse padrão pressiona toda a cadeia — incluindo conversoras de papel, embalagens e papelão — a estruturar PGRS robustos e logística reversa.
Tabela mestre: 12-15 resíduos por etapa × Classe NBR
A planta Kraft típica gera resíduos em sete grandes etapas. A tabela abaixo consolida os principais fluxos com geração específica (kg por tonelada de celulose seca ao ar), classe NBR 10004 e destinação consagrada.
| Etapa | Resíduo | Geração (kg/t) | Classe NBR 10004 | Destinação típica | |—|—|—|—|—| | Pátio de madeira | Cascas e finos de serragem | 50-150 | IIA | Caldeira de biomassa, compostagem florestal | | Pátio de madeira | Areia e terra do descascamento | 5-15 | IIA | Aterro IIA, leito viário | | Cozimento | Black liquor | — | Subproduto interno | Caldeira de recuperação Kraft | | Cozimento | Gases TRS (H2S, mercaptanas) | — | Emissão atmosférica | Queima em forno de cal/incineração | | Lavagem/branqueamento | Efluente com AOX | grande volume | Efluente | ETE física-química e biológica | | Lavagem/branqueamento | Knots e rejeito de cavacos | 10-25 | IIA | Caldeira de biomassa ou retorno ao digestor | | Recuperação química | Dregs | 8-12 | IIA | Aterro IIA, corretivo agrícola | | Recuperação química | Grits | 2-5 | IIA | Construção civil, corretivo agrícola | | Recuperação química | White mud excedente | 5-15 | IIA | Indústria cerâmica, agricultura | | Caldeira de recuperação | Cinzas de precipitador | 3-8 | IIA | Aterro IIA, corretivo | | Caldeira de biomassa | Cinzas | 10-25 | IIA | Corretivo agrícola, substituição parcial de cimento | | ETE | Lodo primário | 30-50 | IIA | Compostagem, coprocessamento | | ETE | Lodo biológico | 15-30 | IIA | Compostagem, biodigestão | | Manutenção | Óleo lubrificante usado | variável | I (perigoso) | Re-refino licenciado (CONAMA 362) | | Manutenção | Estopa e EPI contaminados | variável | I (perigoso) | Coprocessamento, incineração | | Embalagem | Big-bags, paletes, plásticos | variável | IIA/IIB | Reciclagem por logística reversa |
A classe Classe IIA (não inerte) predomina, mas o conjunto exige plano de amostragem para confirmar com NBR 10005 (lixiviação) e NBR 10006 (solubilização) — especialmente para lotes contaminados por óleo, biocidas ou metais. Para um exemplo de sibling industrial com perfil distinto, veja resíduos da indústria automotiva, em que a presença de borras oleosas e tintas eleva o percentual de Classe I, e resíduos de lavanderia industrial e hospitalar, com perfil dominado por contaminação biológica e química.
Black liquor (licor negro) e recuperação química Kraft
O black liquor é a solução escura formada após o cozimento da madeira no digestor Kraft. Sua composição mistura uma fração orgânica — lignina (30-45%), polissacarídeos hidrolisados, ácidos orgânicos — com uma fração inorgânica de Na2SO4, Na2CO3 e Na2S residuais. Ele sai do processo com cerca de 15% de sólidos (black liquor diluído), passa por evaporadores de múltiplo efeito até atingir 65-75% de sólidos (LNC, licor negro concentrado) e é queimado na caldeira de recuperação Tomlinson.
Na caldeira, dois fenômenos ocorrem simultaneamente: a fração orgânica é oxidada e libera energia (gerando vapor de alta pressão para turbinas), enquanto a fração inorgânica é fundida em “smelt” — uma mistura de Na2CO3 e Na2S. O smelt é dissolvido em água fraca, formando o licor verde, que segue para a caustificação. Lá, adiciona-se cal viva (CaO) que reage com Na2CO3 produzindo NaOH e CaCO3 (white mud). O resultado é o licor branco, devolvido ao digestor, fechando o ciclo.
Por estar em circuito fechado e ser recirculado integralmente, o black liquor não é classificado como resíduo pela NBR 10004 — é um subproduto interno auto-consumido. Eventuais excedentes vendidos como biocombustível ou matéria-prima de lignina entram como subproduto/coproduto na receita, não como resíduo. Essa lógica é central para entender por que a celulose Kraft tem indicadores tão altos de reciclagem.
Dregs, grits e white mud: resíduos do ciclo de recuperação
Apesar do ciclo fechado, três pontos do circuito geram resíduos sólidos que saem do sistema: o clarificador de licor verde, o apagador de cal (slaker) e a filtração da lama de cal.
Dregs são o material escuro que decanta no clarificador de licor verde — partículas insolúveis acumuladas (carbonatos de ferro, alumínio, magnésio, sulfetos metálicos, sílica, fósforo). Aspecto: lodo escuro com 50-60% de umidade. Geração típica: 8-12 kg/t celulose. Classe IIA.
Grits são retirados do apagador de cal — impurezas insolúveis da cal viva (CaO não reagido, calcário cru, areia). Aspecto: areia cinza-clara grossa. Geração: 2-5 kg/t. Classe IIA.
White mud ou lama de cal é o CaCO3 precipitado na caustificação. Após filtragem, vai ao forno de cal para regenerar CaO; excedentes ou material off-spec são descartados. Classe IIA.
Destinação atual: dregs e grits têm crescente uso agrícola como corretivo de acidez (substituem calcário, aportam P2O5 e micronutrientes), conforme a norma técnica CETESB P4.230 que regula disposição em solo. Há também aplicações em solo-cimento, agregado em argamassa e pavers de concreto. O white mud excedente vai para indústria cerâmica e agricultura. Quando o caminho é forno de cimento, vale revisar os critérios de coprocessamento de resíduos de papel e papelão contaminados.
Lodo primário e biológico: classificação por carga
A ETE de uma fábrica de celulose recebe efluentes de lavagem da polpa, branqueamento (com cloro/dióxido), recuperação química e utilidades. O tratamento típico é em duas etapas: clarificador primário (físico-químico) e reator biológico (lodos ativados ou lagoas aeradas).
O lodo primário concentra fibras, finos celulósicos e cargas minerais (caulim, CaCO3) — geração de 30-50 kg/t base seca. Tem alto poder calorífico (10-12 MJ/kg) e é candidato natural a coprocessamento, compostagem e queima em caldeira de biomassa.
O lodo biológico é a biomassa do reator (microrganismos + matéria orgânica adsorvida) — 15-30 kg/t base seca. Tem maior teor de água e nitrogênio, sendo destinado a compostagem, biodigestão anaeróbia ou aplicação em solo florestal regulamentada.
Ambos os lodos são, na maior parte dos casos, Classe IIA (não inerte) pela NBR 10004, mas podem migrar para Classe I caso lotes contenham resíduos perigosos misturados (óleo, biocida, metais pesados acima dos limites de lixiviação). É obrigatório plano amostral periódico. Para o tratamento legal e técnico do efluente do qual o lodo é gerado, consulte classificação e destino legal do lodo de ETE.
Como estruturar a gestão (SOP, frequência, KPIs)
A boa prática setorial combina inventário, segregação, rastreabilidade e indicadores. Os passos essenciais:
1. Inventário NBR 10004 — laudo de classificação por resíduo, com NBR 10005 (lixiviação) e NBR 10006 (solubilização) atualizados a cada 12-24 meses ou a cada mudança de matéria-prima/processo. 2. Segregação na fonte — bombonas, baias e silos identificados por classe e código IBAMA. Treinamento operacional trimestral. 3. PGRS — documento exigido pela Lei 12.305/2010 (PNRS), com fluxograma de geração, metas de redução e contratos com destinadores licenciados. Veja como estruturar o PGRS industrial passo a passo. 4. MTR e SINIR — Manifesto de Transporte e Inventário Nacional (gov.br/mma) atualizados em cada movimentação. Em SP, integração com SIGOR-CETESB. 5. KPIs operacionais — taxa de reaproveitamento (alvo >95%), geração específica por tonelada de celulose, % black liquor recuperado (>97%), GRI 306-3/4/5 nos relatórios anuais. 6. Auditoria de destinadores — visita técnica anual ao aterro, coprocessador, compostagem ou reciclador. Verificar licença ambiental vigente, MTR retroativo e seguro ambiental. 7. Logística contratada — para fábricas em SP, contratar serviço de coleta de resíduos industriais especializado com frota licenciada CETESB e rastreabilidade ponto a ponto.
A Seven Resíduos atende plantas de celulose, conversoras de papel e cartonagens com gestão integrada — laudos NBR, PGRS, MTR/SIGOR, transporte e destino final auditado.
Perguntas frequentes
1. Black liquor é resíduo ou subproduto? Black liquor é subproduto interno do processo Kraft, consumido integralmente no próprio circuito de recuperação (caldeira, caustificação, retorno ao digestor). Não é classificado como resíduo pela NBR 10004 enquanto permanece no ciclo. Excedentes vendidos como biocombustível ou matéria-prima de lignina entram como coproduto comercial.
2. Dregs e grits podem ser destinados a aterro? Sim. Por serem Classe IIA (não inerte), aceitam aterro industrial Classe IIA licenciado. Porém o setor migra rapidamente para uso agrícola (corretivo de acidez do solo) e construção civil (agregado em argamassas, solo-cimento, pavers), conforme normas técnicas como CETESB P4.230 e metas de zero aterro de Klabin e Suzano.
3. Indústria de celulose precisa de PGRS? Sim. A Lei 12.305/2010 (PNRS) torna o PGRS obrigatório para todos os geradores industriais. CETESB, IAT e FEPAM exigem o documento no licenciamento ambiental. O PGRS deve descrever inventário, segregação, transporte, destino e responsáveis técnicos, com revisão a cada renovação de licença.
4. Lodo primário de papel é sempre Classe IIA? Na grande maioria dos casos sim — é predominantemente fibroso e mineral, sem características de periculosidade. Mas é obrigatório validar com laudo NBR 10005/10006 a cada 12-24 meses, porque contaminações cruzadas (óleo, biocidas, metais de manutenção) podem reclassificar o lote como Classe I.
5. Cinzas de caldeira de biomassa têm aproveitamento agronômico? Sim. As cinzas são ricas em K, Ca, P, Mg e elevam pH do solo, sendo aplicadas como corretivo conforme IN MAPA 61/2020 e a CETESB P4.230. É necessário laudo de metais pesados e ensaio de lixiviação. Em fábricas modernas, 100% das cinzas vão para aplicação agrícola, evitando aterro.



