A ABNT NBR ISO 14067:2018 define princípios, requisitos e orientação para quantificar e comunicar a Pegada de Carbono de Produto (CFP — Carbon Footprint of Products). Atualização da ISO/TS 14067:2013 (technical specification), a 14067 ganha status de norma internacional plena, alinhada à família ISO 14000. Para a indústria que exporta para a UE, participa de licitação pública, atende B2B global ou disputa marketplace B2C com selo carbono, dominar a 14067 deixou de ser diferencial e passou a ser pré-requisito de acesso a mercado. Este guia da Seven Resíduos detalha os 4 elementos centrais, as 4 modalidades de aplicação, números de 8 setores BR, a integração com LCA, EPD e CBAM, e um caso siderúrgico com redução de 38% no custo CBAM.
O que é a ISO 14067:2018
A ISO 14067 foi publicada em 2018 e adotada pela ABNT como ABNT NBR ISO 14067:2018. Substitui a ISO/TS 14067:2013 (technical specification pré-normativa) e estabelece princípios para quantificar o CFP (Carbon Footprint of Products) — soma de emissões e remoções de gases de efeito estufa em um sistema de produto, em CO2e, avaliada com Avaliação do Ciclo de Vida (LCA — Life Cycle Assessment) conforme ISO 14040 e 14044. Complementa a ISO 14064-1 (inventário GHG organizacional, CFO — Carbon Footprint of Organization), conversa com a ISO 14025 (EPD — Environmental Product Declaration, tipo III) e dialoga com a ISO 14020/21 (Environmental Labelling tipos I, II e III).
CFP versus CFO: a diferença que muda escopo e auditoria
A confusão comum é tratar CFP e CFO como sinônimos. CFO (ISO 14064-1) mede emissões da organização em 12 meses, em escopos 1 (diretas), 2 (energia comprada) e 3 (cadeia de valor) do GHG Protocol Corporate. Unidade: tCO2e/ano. CFP (ISO 14067) mede emissões de um único produto ao longo do ciclo de vida, com LCA. Unidade: kgCO2e por unidade declarada (1 ton de aço, 1 m² de tecido, 1 PET 0,5 L, 1 kWh). O CFO alimenta o inventário corporativo e a meta SBTi; o CFP alimenta rótulo, EPD, CBAM e dado granular B2B.
Os 4 elementos centrais da ISO 14067:2018
1. Escopo e limite de sistema. Fronteira do ciclo de vida em três opções: cradle-to-gate (do berço — extração — até o portão da fábrica), cradle-to-grave (do berço ao túmulo, com uso, fim de vida e logística reversa) e gate-to-gate (apenas um trecho). Define upstream (montante) e downstream (jusante).
2. Unidade declarada e funcional. Unidade declarada é usada quando a função não é totalmente definida (1 kg de cimento). Unidade funcional é usada em comparação de desempenho (1 m² de embalagem que protege X kg por Y meses).
3. Inventário (LCI) ISO 14040 e 14044. Lista fluxos elementares (recursos e saídas) e fluxos intermediários (matérias-primas, energia, transporte). Fontes: Ecoinvent (suíço), ELCD (European Life Cycle Database), GaBi (Sphera), BBCV (Banco Brasileiro de Ciclo de Vida) do IBICT e IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo). Dados primários supplier-specific prevalecem sobre default values.
4. Cálculo com IPCC AR6 GWP-100. Converte cada gás em CO2e via GWP-100 (Global Warming Potential 100 anos) do IPCC AR6 (Sixth Assessment Report, 2021-2023). Inclui tratamento do carbono biogênico (biomassa) e da remoção biogênica (biogenic offset), separados do fóssil.
Cradle-to-gate ou cradle-to-grave: como definir o limite
A decisão de fronteira é estratégica. Para CBAM e EPD de commodities (aço, cimento, alumínio, fertilizante, hidrogênio), cradle-to-gate é padrão. Para bens de consumo (cosméticos, alimentos, têxtil), cradle-to-grave é exigido em rotulagem e marketplace. Para auditoria de processo, gate-to-gate isola um trecho — útil para estudo de melhoria sem reabrir a cadeia.
As 4 modalidades de aplicação industrial brasileira
1. Exposição ao CBAM. O CBAM (Carbon Border Adjustment Mechanism) é o ajuste de fronteira da UE que precifica carbono embutido em importações de aço, cimento, alumínio, fertilizante, hidrogênio e eletricidade. O exportador BR pode usar default values (padrão da Comissão, conservadores e altos) ou supplier-specific data (granulares por fornecedor, calculados via ISO 14067). A redução típica é de 30% a 50% no custo CBAM ao trocar default por supplier-specific.
2. EPD ISO 14025 e Green Public Procurement. A EPD (Environmental Product Declaration) tipo III certificada por terceira parte é credencial em Green Public Procurement UE, em construção sustentável LEED v5 e BREEAM, e em projetos IFC EDGE. A 14067 é a base de cálculo; a 14025 é o formato. EPD International (sueco) e EPD Brasil publicam declarações em registro público.
3. Rotulagem ambiental B2C. A ABNT NBR 14020/21 define três tipos: tipo I (selo terceira parte), tipo II (autodeclaração) e tipo III (EPD quantitativa). Marketplaces exigem selo carbono, e a UE Anti-Greenwashing Directive 2024 veta alegações genéricas sem dado verificável.
4. ESRS, IFRS S2, SBTi, CDP e Race to Zero. A CFP alimenta ESRS E1 (Climate Change) e ESRS E5 (Resource Use) da CSRD, o IFRS S2 (ISSB), a meta SBTi corporate net zero, o CDP supply chain e o Race to Zero ONU. Sem CFP por produto, o scope 3 fica genérico e a meta perde validação.
Pegada típica em 8 setores brasileiros
A tabela consolida valores observados em estudos públicos e EPDs registrados. São ordens de grandeza para benchmarking — cada estudo ISO 14067 exige cálculo próprio.
| Setor | Empresas BR de referência | Pegada típica | Unidade declarada | Rota principal de redução |
|---|---|---|---|---|
| Alimentos e bebidas | Ambev, Coca-Cola, JBS, Marfrig, BRF, Nestlé | 2-7 kgCO2e/kg | 1 kg de produto final | Pecuária regenerativa, leite low-carbon, embalagem PCR |
| Papel e celulose | Suzano, Klabin, Bracell, Ibema | 0,8-1,5 kgCO2e/kg | 1 ton de celulose seca | Florestas plantadas, biogenic offset, recovery boiler |
| Cimento | Votorantim, InterCement, CSN Cimentos | 0,55-0,75 kgCO2e/kg | 1 kg de cimento CP-II | Co-processamento, clínquer reduzido, escória |
| Aço bruto | Vale, Gerdau, CSN, ArcelorMittal, Usiminas | 1,8-2,3 kgCO2e/kg | 1 kg de aço bruto | DRI-EAF, hidrogênio verde, sucata reciclada |
| Alumínio primário | Hydro, CBA | 11-18 kgCO2e/kg | 1 kg de alumínio primário | Hidrelétrica, anodo inerte, reciclagem |
| Químicos e petroquímicos | Braskem, Solvay, Unipar | 1-8 kgCO2e/kg | 1 kg de resina ou intermediário | Bio-naftas, PE verde, eletrificação de crackers |
| Têxtil e vestuário | Vicunha, Hering, Riachuelo | 8-25 kgCO2e/kg | 1 kg de tecido acabado | Algodão regenerativo, poliéster reciclado |
| Cosméticos e farmacêutica | Natura, Boticário, EMS, Eurofarma | 0,1-2 kgCO2e/produto | 1 unidade vendida | Refil, embalagem PCR, ingrediente bio-based |
GWP IPCC AR6 e o carbono biogênico
A 14067:2018 obriga o GWP-100 do AR6. Valores: CO2 = 1, CH4 fóssil = 29,8 (não-fóssil = 27,2), N2O = 273, HFC-134a = 1.530, SF6 = 24.300, NF3 = 17.400. A diferença entre CH4 fóssil e não-fóssil é obrigatória e impacta biogás, pecuária e aterro. Carbono biogênico e remoção biogênica (florestamento, sequestro de longa vida) são contabilizados separadamente do fóssil. Esse tratamento é especialmente relevante para a indústria brasileira de papel e celulose, açúcar e álcool, alimentos e silvicultura, que opera com matriz energética rica em biomassa e tem oportunidade real de comunicar pegada baixa quando o cálculo segue rigorosamente a norma.
Verificação third-party com ISO 14064-3
Para o CFP ter valor regulatório, precisa de verificação independente conforme ISO 14064-3, que define dois níveis: reasonable assurance (alta segurança, equivalente a auditoria contábil) e limited assurance (revisão analítica). O endosso CSRD via EFRAG tende a reasonable assurance. A verificação é feita por OCS (Organismo de Certificação) acreditado pelo INMETRO ou por organismos signatários do IAF.
Integração com LCA, EPD, GHG Protocol e CBAM
O ecossistema normativo brasileiro inclui: ISO 14040+14044 (LCA), ISO 14025 (EPD), ISO 14020/21 (Labelling), ISO 14064-1+2+3, ISO 14001 (SGA), ISO 50001 (Energy Management System, EnMS), o GHG Protocol Product Standard 2011, o Programa Brasileiro GHG Protocol (FGV-EAESP, Selo Ouro/Prata/Bronze), EPD International e EPD Brasil, ESRS E1+E5, IFRS S2, SBTi, CDP supply chain, Race to Zero, CBAM, RenovaBio (Lei 13.576/2017) e CBIO, e o B3 ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial). A integração correta evita retrabalho — um único inventário LCA bem estruturado alimenta CFP, EPD, CBAM e ESRS simultaneamente.
Protocolo Seven em 5 etapas
A metodologia de consultoria em pegada de carbono de produto da Seven adota cinco etapas bem articuladas, com escopo, unidade declarada e prioridades definidas no início.
Etapa um, escopo, unidade e fronteira: a equipe da Seven conduz workshop com engenharia, suprimentos, qualidade e comercial para travar a opção entre cradle-to-gate e cradle-to-grave, definir a unidade declarada por linha de produto e selecionar a carteira prioritária para a primeira temporada CFP. A escolha errada de fronteira aqui custa retrabalho na fase de auditoria e a revalidação leva, em média, três meses adicionais.
Etapa dois, coleta de dados primários e secundários: balanço de massa e energia por linha de processo, integração com SAP ou ERP equivalente, contratos de fornecedores com cláusula de dados ambientais, registros de transporte e tratamento de resíduos. Quanto maior o percentual de dado primário sobre o total, menor o intervalo de incerteza e maior o valor regulatório do CFP final.
Etapa três, modelagem LCA conforme ISO 14040 e 14044: a Seven usa SimaPro, GaBi ou openLCA, com bases Ecoinvent, ELCD e BBCV, regras explícitas de alocação por massa ou econômica e tratamento documentado de carbono biogênico. Cada parâmetro fica rastreado em planilha-modelo para reproduzir o cálculo na auditoria de terceira parte.
Etapa quatro, cálculo CFP e relatório ISO 14067: aplicação do GWP-100 do IPCC AR6, cenários de sensibilidade que estressam fontes de dado, benchmark setorial com EPDs públicas e plano de redução vinculado ao lever set já priorizado por capex e payback. O relatório segue o sumário recomendado pela ABNT.
Etapa cinco, verificação ISO 14064-3 e publicação EPD ISO 14025: contratação de OCS acreditado pelo INMETRO, escolha entre reasonable e limited assurance conforme o caso de uso, registro em EPD International ou EPD Brasil e divulgação coordenada com investidor, cliente B2B e canal B2C.
Caso real: siderúrgica brasileira de aço bruto e laminados
Cliente: siderúrgica BR de 380.000 ton/ano de aço bruto e laminados especiais, exportadora para UE e EUA. Diagnóstico: ausência de CFP por produto, exposição CBAM com default UE de 2,3 kgCO2e/kg, sem EPD, scope 3 inviabilizando validação SBTi. Implementação cradle-to-gate: inventário com SAP, Ecoinvent e BBCV, modelagem SimaPro, alocação por massa, GWP-100 AR6.
Resultado baseline 2024: 1,87 kgCO2e/kg de aço bruto, abaixo do default UE de 2,3.
Plano de redução: aumento de sucata, piloto DRI-EAF (Direct Reduced Iron + Electric Arc Furnace), PPA renovável e roadmap DRI a hidrogênio verde. Meta: 0,8 kgCO2e/kg em 2030 e 0,2 em 2050.
Ganhos: CBAM com redução de 38% (1,87 vs 2,3); EPD ISO 14025 publicada em EPD International, válida para licitação UE e LEED v5; ESRS E1 disclosure CSRD 2025 com dado granular por SKU; IFRS S2 atendido com cenário 1,5°C; SBTi-validated 1,5°C scope 1+2+3; RenovaBio CBIO operacional na frota.
FAQ
A ISO 14067 substitui a ISO 14064-1?
Não. A 14067 mede CFP por produto; a 14064-1 mede CFO da organização. São complementares: a 14064-1 alimenta a meta SBTi corporativa, e a 14067 alimenta EPD, CBAM e rótulo carbono.
Cradle-to-gate é suficiente para o CBAM?
Sim para os setores cobertos hoje (aço, cimento, alumínio, fertilizante, hidrogênio, eletricidade). O CBAM exige fronteira até o portão da fábrica, com dados supplier-specific verificados. Cradle-to-grave é exigido em rotulagem B2C.
Posso usar Ecoinvent para 100% dos dados?
Não. A ISO 14067 prioriza dados primários medidos no processo. Ecoinvent, ELCD, GaBi e BBCV cobrem upstream e processos genéricos, mas energia, matéria-prima principal e emissões diretas precisam ser primários.
Quanto tempo leva implementar a ISO 14067?
Tipicamente 4 a 8 meses para o primeiro produto: 1 mês de escopo, 2 a 3 meses de coleta, 1 a 2 meses de modelagem, 1 mês de verificação ISO 14064-3. Plantas com inventário GHG maduro reduzem para 3 a 4 meses.
A EPD precisa ser renovada?
Sim. A EPD ISO 14025 tem validade típica de 5 anos, com revisão obrigatória se houver mudança relevante de processo, fornecedor ou matriz energética. A renovação reaproveita o LCI base e atualiza fatores de emissão.
Conclusão
A ABNT NBR ISO 14067:2018 é a norma central para a indústria brasileira operar em quatro frentes — CBAM, EPD, rotulagem B2C e disclosure ESRS+IFRS+SBTi — sem retrabalho. O caso siderúrgico demonstra ganho mensurável: 38% de redução no custo CBAM, EPD publicada e SBTi validada, com redução de 1,87 para 0,2 kgCO2e/kg até 2050. A Seven Resíduos integra a 14067 com LCA, EPD e CBAM em um único protocolo pronto para reasonable assurance.
Para uma indústria brasileira que ainda não tem CFP por produto, o caminho é simples e o relógio favorece quem age rápido. O ciclo 2026-2028 traz CBAM em vigência financeira plena, ESRS E1 cobrando dado granular comparável, IFRS S2 mandatório no Brasil para companhias abertas e bancos europeus calibrando spread por evidência verificada. Quem entra agora consolida vantagem competitiva sustentável e protege margem; quem espera 2028 paga o prêmio de risco que o mercado já precifica. O passo inicial é definir produtos prioritários, escolher OCS acreditado e iniciar coleta de dados primários por linha. Em quatro a oito meses, o primeiro CFP fica pronto para verificação. Em 12 a 18 meses, a carteira inteira de SKUs prioritários está auditada, alimentando ESRS, IFRS S2, SBTi, CDP e CBAM com a mesma fonte de dado. Fale com o time técnico Seven para um diagnóstico CFP da sua planta.



