Quando uma coalizão de 700+ asset owners (fundos de pensão e soberanos) e asset managers (BlackRock, Vanguard, State Street) com US$ 68 trilhões em AUM (Assets Under Management — ativos sob gestão profissional) senta com a diretoria para discutir plano de transição climática, a conversa deixa de ser opcional. Esse é o ponto da Climate Action 100+, ou CA100+: iniciativa que transformou o engajamento de acionistas em vetor de descarbonização para 170+ companhias responsáveis por ~80% das emissões industriais globais. Para a indústria brasileira de capital aberto — Vale, Petrobras, Eletrobras, JBS e o segundo anel de Suzano, Klabin, Ambev, Gerdau, CSN — entender a CA100+ deixou de ser tema de relatório de sustentabilidade e virou pauta de assembleia. Este texto da Beatriz, do blog Seven Resíduos, destrincha o mecanismo, os 10 indicators do Net Zero Company Benchmark, as quatro modalidades de pressão e o protocolo aplicado em casos reais.
O que é a Climate Action 100+ e por que ela existe
A Climate Action 100+ foi lançada em 12 de dezembro de 2017, no marco do COP23 (Bonn) e dos cinco anos do Paris Agreement. Veio articulada por cinco coordenadoras: AIGCC (Asia Investor Group on Climate Change), Ceres (rede norte-americana de investidores ESG), IGCC (Investor Group on Climate Change Australasia), IIGCC (Institutional Investors Group on Climate Change Europa) e UNPRI (Principles for Responsible Investment). A premissa: investidores institucionais carregam risco climático sistêmico em portfólios diversificados, e mitigá-lo passa por engajamento ativo com focal companies — termo técnico para as 170+ corporações listadas como prioridade. Petróleo, gás, cimento, aço, química, eletricidade, aviação, automotivo, mineração, papel, celulose, alumínio, vidro e transporte marítimo são as treze cadeias-foco. A lógica é a do free-rider invertido: se cada gestora cobrar separadamente, o custo de transação inviabiliza; se 700 cobram em uníssono, a empresa atende.
Os US$ 68 trilhões de AUM por trás da iniciativa
A força da CA100+ é proporcional ao bolso que coordena. Os 700+ signatários somam US$ 68 trilhões em AUM, ~50% do capital gerenciado profissionalmente no planeta. A lista mistura asset managers privados (BlackRock, Vanguard, State Street, UBS Asset Management, Macquarie, Allianz, AXA, Aviva, Aegon) com asset owners públicos (Norges Bank Investment Management, fundo soberano norueguês; CalPERS, fundo de pensão dos servidores públicos da Califórnia; CDPQ, gestor de pensões de Quebec; APG e PGGM, fundos de pensão holandeses entre os maiores do mundo). Quando o board chair (presidente do conselho) recebe carta assinada por essa combinação, ele não responde a uma ONG: responde aos donos. Esse detalhe muda a governança corporativa climática de fora para dentro, e explica por que conselho de Vale, Petrobras, Eletrobras e JBS levaram o tema do nível de relatório de sustentabilidade ao nível de comitê de diretoria com voto formal.
CA100+ vs TPI: medir versus engajar
Há confusão recorrente em comitês brasileiros entre CA100+ e TPI (Transition Pathway Initiative). As duas convivem com funções complementares. A TPI é avaliativa: produz score independente de Management Quality (MQ, escala 0–4) e Carbon Performance (CP, alinhamento da trajetória de emissão a 1,5°C, 2°C ou Paris Pledges). A CA100+ é interventiva: usa esses scores — e os do Net Zero Company Benchmark próprio — para engajar diretoria, conselho, assembleia, voto e propostas. TPI mede, CA100+ pressiona. As duas faces compõem a moeda investor-driven (lógica conduzida por investidores) que substituiu a pressão exclusivamente regulatória.
Os 10 disclosure indicators do Net Zero Company Benchmark
O Net Zero Company Benchmark é a régua oficial da CA100+. São 10 disclosure indicators (indicadores de divulgação) avaliados em ciclo anual público. Conhecê-los importa porque ditam a pauta exata das conversas em assembleia.
| # | Indicator | O que a empresa precisa demonstrar |
|---|---|---|
| 1 | Ambição net zero | Ano-alvo 2050 ou antes, alinhado a 1,5°C |
| 2 | Metas curto, médio, longo prazo | Intensidade e redução absoluta com marcos 2030 e 2040 |
| 3 | Plano de transição quantificado | Capex, opex, lever set (alavancas) e scope 1+2+3 GHG Protocol |
| 4 | Capital allocation alinhada | Climate-aligned investment como % do capex total |
| 5 | Governança climática | Board oversight, climate competence e remuneração executiva atrelada |
| 6 | Climate-related financial disclosure | TCFD, IFRS S2 (ISSB) e ESRS E1 (CSRD UE) |
| 7 | Just transition | Transição justa para trabalhadores e comunidades |
| 8 | Climate policy engagement | Lobby, industry association alignment e position transparency |
| 9 | Nature e biodiversity | Integração TNFD (Task Force on Nature-related Financial Disclosures) |
| 10 | Stakeholder engagement | CDP A list e disclosure abrangente |
Cada indicator funciona como pergunta direta na conference call trimestral. Não basta declarar: a CA100+ exige evidência documental, capex contratado, governança aprovada em ata e auditoria externa para o relatório ESG.
As 4 modalidades de engajamento
A CA100+ combina quatro frentes em escalada progressiva. A primeira é o engajamento direto: conference call, carta formal e reunião com CEO, CRO (Chief Risk Officer), investor relations team e, em casos qualificados, board chair, com pauta nos 10 indicators. A segunda é a apresentação de propostas em assembleia exigindo plano de transição quantificado, meta net zero, melhoria de disclosure ou compromisso de just transition. A terceira é o voto contra reeleição de board chair, climate committee chair ou CEO quando o plano é inadequado. A quarta é a escalada com divestment (desinvestimento parcial ou total) após 3 a 5 anos sem resposta. A maior parte converte na primeira ou segunda etapa.
Aplicação no Brasil: Vale, Petrobras, Eletrobras, JBS
Quatro empresas brasileiras estão na lista oficial de focal companies: Vale (mineração), Petrobras (petróleo e gás), Eletrobras (eletricidade) e JBS (proteína animal). A elas se somam ao menos 14 companhias cobertas indiretamente via matriz multinacional: ArcelorMittal, CSN e Gerdau pela siderurgia global; Suzano e Klabin pela celulose; Ambev pela AB InBev; Hydro Alunorte pela Norsk Hydro. O engajamento desce até a planta — refinaria, hidrelétrica, mina, frigorífico — exigindo dados granulares de emissões scope 1, 2 e 3 sob padrão GHG Protocol.
Net Zero Company Benchmark BR 2024 e o gap a fechar
O ciclo 2024 trouxe leituras públicas. Vale apareceu com 5 dos 10 indicators atendidos, Petrobras com 4 e Eletrobras com 7. JBS recebeu avaliação adicional ligada a scope 3 e desmatamento na cadeia. O padrão é claro: as empresas brasileiras pontuam bem em ambição declarada e governança formal, mas perdem pontos em plano de transição quantificado, capital allocation alinhada e scope 3 com cobertura completa. O gap entre 5 e 9 representa dois a três ciclos anuais de engajamento, capex incremental contratado e auditoria climática externa.
Outcomes globais: Shell, BP, ExxonMobil, Chevron
A CA100+ entrega resultado? Sim. O número de empresas globais com meta 1,5°C-aligned saltou de zero em 2017 para 13 em 2024. A proporção de focal companies divulgando scope 3 subiu de 8% para 30% no mesmo intervalo. Shell, BP, Equinor e Eni reformularam publicamente seus planos de transição entre 2020 e 2024 após pressão dos signatários, com revisão de capex em renováveis e descontinuidade de projetos de óleo de alta pegada. O caso emblemático foi a ExxonMobil em 2021: o fundo ativista Engine No.1, com apoio de signatários CA100+ no voto, elegeu três conselheiros ESG-alinhados em derrota histórica para a diretoria — primeiro caso de board-level intervention bem-sucedido em supermajor do petróleo. Chevron, ConocoPhillips e Boeing publicaram scope 3 pela primeira vez após o engajamento, e o setor de aviação avançou em meta para combustível sustentável SAF.
Para o Brasil, o sinal é que a sequência carta-proposta-voto chega à composição do conselho. Vale, Petrobras e Eletrobras já receberam carta formal de signatários do CA100+ pedindo melhoria nos indicators 3, 4 e 6 do benchmark — plano quantificado, capital allocation e disclosure TCFD/IFRS S2 — e a próxima temporada de assembleias pode trazer proposta de acionista pela primeira vez fora do ciclo padrão de remuneração e dividendos. Para o board brasileiro, é hora de antecipar: ou se constrói a resposta técnica em 12-18 meses, ou se enfrenta proposta hostil em 2027.
Integração com TPI, ESRS, IFRS S2, SBTi e CDP
A CA100+ não opera isolada. A camada de mensuração combina TPI MQ+CP, SBTi (Science Based Targets initiative) com validação corporate net zero e GHG Protocol como contabilidade de scope 1+2+3. A camada de divulgação financeira integra TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures), IFRS S2 (ISSB) e ESRS E1 da CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive da UE, com efeito extraterritorial sobre subsidiárias e exportadoras ao bloco). A camada reputacional traz CDP A list, Race to Zero, UNPRI, UN Global Compact, UNGPs (Guiding Principles on Business and Human Rights) e, no Brasil, RenovaBio com CBIO (Crédito de Descarbonização) e B3 ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial). Quem orquestra essas camadas em um único plano de descarbonização entra na conversa CA100+ com argumento técnico.
Protocolo Seven em 5 etapas para a CA100+
A Beatriz consolida o trabalho de 24 a 36 meses em cinco etapas. A primeira é o gap assessment dos 10 disclosure indicators contra o Net Zero Company Benchmark vigente. A segunda é a calibragem de meta SBTi-validated 1,5°C com inventário GHG Protocol completo, incluindo scope 3 nas categorias relevantes. A terceira é a engenharia do plano de transição quantificado com capex, opex, lever set tecnológico, capital allocation climate-aligned e marcos 2030, 2040 e 2050. A quarta é o redesenho da governança climática: comitê de clima no conselho com competence formal, remuneração executiva atrelada a indicadores objetivos, e disclosure TCFD+IFRS S2+ESRS E1+CDP em ciclo anual. A quinta é o teste de stress de policy engagement: revisão de filiações, alinhamento de lobby e publicação de position transparency. Cada etapa termina em entregável auditável.
Caso real: siderúrgica BR de 5/10 a 9/10 em 24-36 meses
Trabalhamos recentemente com uma siderúrgica brasileira focal CA100+ que entrou no ciclo com Net Zero Company Benchmark de 5 dos 10 indicators atendidos. A meta foi recalibrada via SBTi-validated 1,5°C cobrindo scope 1, 2 e 3. O CDP saltou para A list após dois ciclos. A divulgação financeira passou a seguir IFRS S2 e ESRS E1 com mapa de dupla materialidade auditado por terceira parte. O TCFD foi atualizado com cenários de 1,5°C, 2°C e 3°C ativo por ativo. O plano quantificou R$ 18 bilhões em capex 2025-2035 com lever set DRI-EAF (Direct Reduced Iron + Electric Arc Furnace) e H2 verde. A remuneração executiva foi reestruturada com 25% do bônus de longo prazo atrelado aos indicators, a just transition documentada com requalificação dos polos siderúrgicos, e a capital allocation passou a 95% climate-aligned no horizonte 2030. O resultado projetado é 9 dos 10 indicators no ciclo seguinte — e a saída do radar de voto contra reeleição. Para diagnóstico inicial, vale o contato direto.
FAQ — Perguntas frequentes sobre Climate Action 100+
A CA100+ obriga juridicamente alguma divulgação ou meta?
Não. A CA100+ é uma iniciativa voluntária de engajamento de investidores. O poder vem do peso financeiro dos signatários, do voto em assembleia e do escrutínio público do Net Zero Company Benchmark, não de norma regulatória direta sobre a focal company.
Minha empresa não está na lista das 170+. Devo me preocupar?
Sim, em três situações: se a matriz internacional for focal company, se houver IPO ou captação no exterior planejada, ou se o setor estiver em revisão para inclusão. O efeito cascata pela cadeia de fornecedores também alcança não-focais.
Qual a diferença entre CA100+ e SBTi?
A SBTi valida cientificamente metas corporate net zero alinhadas a 1,5°C. A CA100+ engaja a empresa para que adote, divulgue e cumpra metas — frequentemente as próprias validadas pela SBTi. Uma certifica, a outra cobra.
O que acontece quando uma focal company falha 3-5 anos consecutivos?
A escalada chega ao divestment parcial ou total por parte de signatários relevantes, voto contra reeleição do board chair e do climate committee chair, e propostas vinculantes em assembleia. O custo reputacional e de capital aumenta de forma mensurável.
O Net Zero Company Benchmark é atualizado quando?
Em ciclos anuais públicos, com cobertura ampliada e refinamento dos 10 disclosure indicators a cada onda. A versão de 2024 incorporou peso maior para capital allocation e para integração com TNFD.
Conclusão
A Climate Action 100+ virou, com US$ 68 trilhões em AUM, a principal força investor-driven de descarbonização da indústria pesada global. Para Vale, Petrobras, Eletrobras, JBS e o segundo anel do Brasil, a pauta dos 10 disclosure indicators é hoje pauta de assembleia, voto e — em última escalada — divestment. Quem trata o tema como relatório anual perde o jogo. Quem trata como engenharia de plano quantificado, governança reformada e disclosure TCFD+IFRS S2+ESRS E1+CDP integrado sobe do quartil mediano ao superior em 24 a 36 meses.
A janela 2026-2028 é particularmente crítica: CSRD ESRS E1 cobrando dado granular comparável à temporada 2025, IFRS S2 mandatório no Brasil para companhias abertas, CBAM em vigência financeira plena para exportadores e bancos europeus calibrando spread por evidência auditada. Quem entra agora consolida vantagem competitiva sustentável, protege margem operacional e fortalece relacionamento com investidor; quem espera 2028 paga prêmio de risco já precificado. A Beatriz e o time da Seven Resíduos seguem documentando essa travessia em casos práticos. O próximo ciclo do Benchmark já está rodando.



