Incineração, Co-processamento ou Aterro Classe I: como escolher a rota certa
Todo resíduo perigoso (Classe I) precisa de destinação final ambientalmente adequada — mas a rota correta depende da composição do resíduo, não da preferência do gestor ou do preço da proposta. Solventes halogenados exigem incineração em temperatura controlada. Borras com poder calorífico vão melhor para co-processamento. Lamas estabilizadas sem potencial energético vão para aterro.
Este guia compara os três principais métodos de destinação de resíduos Classe I em São Paulo, com critérios técnicos para a escolha, faixas de custo e o que a CETESB exige em cada caso.
Os três métodos: como funcionam
Incineração
Destruição térmica do resíduo em temperatura controlada — geralmente entre 850°C e 1.200°C, dependendo da composição. Reduz o volume em até 95% e transforma o resíduo em cinzas inertes, gases tratados e energia (em algumas plantas).
Quando usar:
- Solventes halogenados (F001/F002) — obrigatoriamente acima de 1.100°C
- Resíduos farmacêuticos e medicamentos vencidos
- PCBs (bifenilas policloradas) — exigem incineração dedicada
- Resíduos com contaminantes orgânicos persistentes
- Qualquer Classe I que não pode ir para co-processamento ou aterro
Faixa de custo SP 2026: R$ 5,00–15,00/kg
Co-processamento
Uso do resíduo como combustível alternativo ou matéria-prima em fornos de cimento — a temperatura acima de 1.450°C na zona de clinquerização destrói os contaminantes orgânicos. É a rota mais econômica para resíduos com poder calorífico.
Quando usar:
- Borras de tinta e pintura com poder calorífico
- Solventes não halogenados
- Óleos industriais não passíveis de rerrefino
- Pneus inservíveis
- Lamas orgânicas com poder calorífico
Restrições:
- Solventes halogenados em concentração acima de 1% são proibidos em co-processamento (Resolução CONAMA 264/1999)
- Resíduos domiciliares, de serviços de saúde e radioativos são proibidos
- O resíduo deve ter laudo de caracterização com PCS (Poder Calorífico Superior) documentado
Faixa de custo SP 2026: R$ 1,50–4,00/kg
Aterro Classe I
Disposição final em célula de engenharia projetada para resíduos perigosos — com impermeabilização dupla (PEAD), sistema de drenagem de lixiviados, monitoramento de águas subterrâneas e cobertura diária.
Quando usar:
- Lamas estabilizadas/solidificadas sem poder calorífico
- Resíduos inorgânicos não tratáveis por destruição térmica
- Escórias e refratários contaminados com metais
- Solos contaminados após remediação parcial
Restrições:
- Resíduos líquidos são proibidos em aterro (devem ser tratados antes)
- Resíduos com alto poder calorífico devem preferencialmente ir para co-processamento ou incineração (hierarquia PNRS)
- O resíduo deve ser estabilizado/solidificado se necessário antes da disposição
Faixa de custo SP 2026: R$ 3,00–8,00/kg
Tabela comparativa: quando usar cada método
| Critério | Incineração | Co-processamento | Aterro Classe I |
|---|---|---|---|
| Custo R$/kg | R$ 5–15 | R$ 1,50–4 | R$ 3–8 |
| Redução de volume | 90-95% | 100% (incorporado ao cimento) | 0% (disposição final) |
| Aceita halogenados | Sim (>1.100°C) | Não (proibido >1%) | Não aplicável |
| Aceita líquidos | Sim | Sim (com PCS) | Não |
| Aceita inorgânicos | Parcialmente | Não (sem PCS) | Sim |
| Documentação | CADRI + MTR + CDF | CADRI + MTR + CDF | CADRI + MTR + CDF |
| Resultado final | Cinzas inertes | Incorporado ao clínquer | Disposição permanente |
| Indicado para | Orgânicos perigosos, pharma, PCB | Resíduos com PCS, borras, solventes | Inorgânicos, lamas, solos |
Como a classificação NBR 10004 determina a rota
O código do resíduo na NBR 10004 define diretamente a rota viável:
| Código/Característica | Rota recomendada | Motivo |
|---|---|---|
| F001/F002 (solventes halogenados) | Incineração >1.100°C | CONAMA 264 proíbe co-processamento |
| F003/F005 (solventes não halogenados, tintas) | Co-processamento | PCS alto, sem restrição de halogênio |
| K051/K052 (borras petroquímicas) | Co-processamento ou incineração | Depende do teor de halogênio |
| D004-D043 (metais tóxicos em lamas) | Estabilização + aterro | Sem poder calorífico, inorgânico |
| D001 (inflamável — OLUC) | Rerrefino (CONAMA 362) | Proibido co-processamento e incineração para OLUC |
| F006 (lamas galvânicas) | Tratamento físico-químico + aterro | Metais pesados, sem PCS |
A segregação na origem é determinante: misturar um solvente não halogenado (rota co-processamento a R$ 2/kg) com um solvente halogenado (rota incineração a R$ 10/kg) obriga que todo o volume vá para incineração. A segregação correta pode reduzir custos em 50-70%.
Critérios de decisão: fluxograma prático
Passo 1: O resíduo contém halogênios (cloro, flúor, bromo)?
- Sim → Incineração (co-processamento proibido)
- Não → Passo 2
Passo 2: O resíduo tem poder calorífico (PCS > 2.000 kcal/kg)?
- Sim → Co-processamento (rota mais econômica)
- Não → Passo 3
Passo 3: O resíduo é inorgânico (metais, lamas, solos)?
- Sim → Aterro Classe I (após estabilização se necessário)
- Não → Incineração (resíduos orgânicos sem PCS)
Passo 4: O resíduo é OLUC?
- Sim → Rerrefino (CONAMA 362 — rota obrigatória, custo zero ou mínimo)
O que a CETESB exige para cada método
Independente do método, a documentação obrigatória é:
- ☐ – CADRI do destinador — válido e específico para o código do resíduo
- ☐ – MTR emitido no SIGOR antes da coleta
- CDF emitido pelo destinador em até 30 dias
- LO do destinador para o método específico (incineração, co-processamento ou aterro)
- Laudo de classificação do resíduo (NBR 10004) arquivado
Para co-processamento, o destinador (cimenteira) também precisa de Licença de Co-processamento emitida pela CETESB — documento adicional que autoriza o uso de resíduos como combustível alternativo.
Checklist: escolha da rota de destinação
- ☐ Resíduo classificado pela NBR 10004 com código e classe
- ☐ Laudo de caracterização com teor de halogênios e PCS (se aplicável)
- ☐ Rota definida conforme fluxograma: halogenado → incineração / PCS → co-processamento / inorgânico → aterro
- ☐ CADRI do destinador verificado no SIGOR para o código do resíduo
- ☐ LO do destinador para o método específico
- ☐ Segregação na origem garantida — sem mistura de rotas
- ☐ Custo comparado entre métodos viáveis (quando mais de um é possível)
Seven Resíduos: coordenação de múltiplas rotas
A Seven Resíduos coordena a destinação de resíduos perigosos com múltiplos destinadores — incineradores, cimenteiras e aterros Classe I — para otimizar custo e conformidade:
- Análise do inventário de resíduos para definir a rota ideal por código
- CADRI válido para cada rota de destinação
- MTR emitido antes de cada coleta — CDF em até 30 dias
- Relatório de custo por rota para visibilidade financeira
Solicite análise de rotas de destinação para os resíduos da sua empresa
FAQ: Perguntas frequentes
Co-processamento é mais barato que incineração?
Sim, significativamente. O co-processamento custa R$ 1,50–4,00/kg contra R$ 5,00–15,00/kg da incineração. Porém, o co-processamento não aceita solventes halogenados (>1%) nem resíduos sem poder calorífico. A rota depende da composição, não do preço.
Posso mandar todo Classe I para aterro?
Tecnicamente, sim — desde que o resíduo não seja líquido e o aterro tenha CADRI para o código. Mas a PNRS (Lei 12.305) estabelece hierarquia que prioriza tratamento sobre disposição final. A CETESB pode questionar empresas que enviam 100% para aterro sem justificativa técnica para não tratar.
OLUC pode ir para co-processamento ou incineração?
Não. A CONAMA 362 obriga que OLUC seja encaminhado para rerrefino. Co-processamento e incineração de OLUC são proibidos exceto em casos específicos autorizados pela ANP. Na prática, OLUC vai para rerrefinador — frequentemente a custo zero.
O que acontece se mandar halogenado para co-processamento?
A CONAMA 264/1999 proíbe co-processamento de resíduos com teor de halogênios acima de 1%. Se a cimenteira aceitar (irregular), tanto o gerador quanto o destinador respondem. A fiscalização cruza o laudo de classificação com a rota — divergência é autuação.
Como saber se meu resíduo tem poder calorífico?
O PCS (Poder Calorífico Superior) é determinado por ensaio laboratorial. Se o resíduo é orgânico (solventes, óleos, borras de tinta), provavelmente tem PCS relevante. Inorgânicos (lamas metálicas, solos, escórias) geralmente não têm. O laudo de classificação pode incluir essa análise.
A escolha entre incineração, co-processamento e aterro é técnica — definida pela composição do resíduo, não pelo custo. Classificação correta, laudo de caracterização e segregação na origem são os três fatores que determinam a rota e otimizam o custo de destinação.
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