A indústria brasileira de celulose Kraft em números
A indústria brasileira de celulose Kraft (processo sulfato, patente de Carl Dahl em 1879) produz cerca de 25 milhões de toneladas/ano e consolida o país como segundo maior produtor mundial, atrás apenas da China. O ciclo regenerativo gera entre 7 e 12 milhões de toneladas/ano de resíduos sólidos pré-prensagem. Suzano (14 milhões ton/ano), Klabin (5 milhões ton/ano), Bracell (2,5 milhões ton/ano), Eldorado (1,8 milhão ton/ano) e Veracel (1,1 milhão ton/ano) operam os maiores complexos integrados, com fibra de eucalipto hardwood respondendo por mais de 75% das exportações brasileiras. A taxa média de geração fica entre 30 e 45 kg de resíduo sólido por tonelada de celulose seca, distribuída entre fluxos minerais regenerativos (dregs e grits), fluxos orgânicos da ETE (lodo primário e biológico), fluxos de biomassa (casca e nó) e o rejeito residual do caustic recovery cycle. Cada planta integrada exige decisão de rota individualizada por fluxo, sob risco de autoignição em lodos úmidos armazenados além de 48 horas.
Histórico do processo Kraft no Brasil
O processo Kraft foi patenteado por Carl Dahl em 1879 na Alemanha e adotado em escala mundial entre 1900 e 1920, substituindo gradualmente o processo sulfite por oferecer fibra mais resistente e ciclo regenerativo de químicos. No Brasil, a primeira planta industrial Kraft foi instalada pela Klabin em Monte Alegre (Paraná) em 1955. A expansão ocorreu nas décadas de 1970 e 1980 com a domesticação do eucalipto clonal, alcançou maturidade industrial entre 1980 e 1990, modernizou-se com o branqueamento ECF (Elemental Chlorine Free, livre de cloro elementar) a partir de 2000 e ingressou na fase de biorefinaria emergente após 2020, com lignina, nanocelulose CNF (Cellulose Nanofibrils) e CNC (Cellulose Nanocrystals). O ciclo Kraft regenerativo possui cinco etapas operacionais: pré-tratamento de cavacos com debarking, chipping e screening; cozimento no digestor sob licor branco (NaOH e Na2S); washing, screening e oxygen delignification; bleaching ECF multi-estágio com ClO2, EDTA, NaOH, H2O2 e ozônio; e regeneração química com evaporação do licor preto, queima em recovery boiler, slaker, causticizer e calcinação no lime kiln. É justamente nessa última etapa que dregs e grits são gerados como subprodutos inevitáveis da regeneração de NaOH e CaO.
Os sete fluxos de resíduo sólido da celulose Kraft
Cada planta Kraft gera sete fluxos sólidos característicos, com origem, composição e destinação próprias. Dregs (3 a 7 kg/ton) saem do clarificador do licor verde, somando 75 a 175 mil ton/ano no parque brasileiro. Grits (0,5 a 2 kg/ton) saem do forno calcário (lime kiln). Lodo primário (15 a 20 kg/ton úmido) sai do clarificador físico-químico da ETE e atinge 375 a 500 mil ton/ano. Lodo biológico (8 a 12 kg/ton úmido) sai do reator aerado de lodos ativados. Casca (10 a 15 kg/ton) é separada no tambor de descascamento pré-cozimento. Nó (knots, 1 a 3 kg/ton) é fibra mal-cozida peneirada pós-digestor. Rejeito (0,5 a 2 kg/ton) reúne filtros, telas e impurezas residuais do caustic recovery cycle. Esses fluxos não são fungíveis entre si: cada um exige caracterização química, decisão de rota e logística próprias.
| Fluxo | Geração (kg/ton celulose) | Composição dominante | NBR 10004 | Rota dominante |
|---|---|---|---|---|
| Dregs | 3 a 7 | Sulfeto Na2S, CaO, silicato, wood debris | IIA | Land Application |
| Grits | 0,5 a 2 | CaCO3 incompleto, CaO, sílica | IIA/IIB | Aterro IIB / cogeração |
| Lodo primário | 15 a 20 | Fibra, celulose, lignina | IIA | Land Application / cogeração |
| Lodo biológico | 8 a 12 | Microbiota, matéria orgânica | IIA | Cogeração / coproc |
| Casca | 10 a 15 | Lignina, celulose, hemicelulose | IIB | Caldeira recuperação |
| Nó (knots) | 1 a 3 | Fibra bonded, lignina | IIA | Recozimento / coproc |
| Rejeito | 0,5 a 2 | Filtros, telas, impurezas | IIA/IIB | Coproc cimenteira |
| Total | 30 a 45 | Mix orgânico-inerte | Predomínio IIA | Multi-rota |
Dregs: o lodo do clarificador de licor verde
Dregs é o termo técnico para o lodo retido no clarificador do licor verde, etapa em que o licor preto queimado na caldeira de recuperação (recovery boiler, caldeira regenerativa Kraft) é dissolvido e clarificado antes do slaker e do causticizer (etapas que regeneram NaOH e Na2S). A matriz contém sulfeto de sódio (Na2S), óxido de cálcio (CaO) insolúvel, silicato (SiO2), matéria orgânica de wood debris e pH alcalino entre 11 e 13. Carbono fixo varia de 35 a 50% e umidade fica em 65 a 75%. A classificação predominante é Classe IIA (não-perigoso, não-inerte, orgânica biodegradável) pela ABNT NBR 10004. A rota dominante é Land Application (aplicação agronômica controlada) em solos do Cerrado e do Pampa, onde o pH alcalino atua como calcário substituto.
Grits: o lodo do forno calcário (lime kiln)
Grits é a fração descartada do forno calcário (lime kiln, forno que regenera CaCO3 em CaO). A matriz é dominada por carbonato de cálcio incompletamente calcinado, óxido de cálcio residual e sílica inerte. A geração fica entre 0,5 e 2 kg/ton de celulose, ou 12 a 50 mil ton/ano no Brasil. O risco operacional inclui temperatura residual próxima a 90°C e reação exotérmica com água, exigindo armazenamento conforme NR-15 e sinalização ABNT NBR 7500. A rota dominante é aterro Classe IIB (resíduo inerte) ou cogeração em casos de matéria orgânica residual elevada. Em casos selecionados, grits também é incorporado a camadas laterais de aterro Classe IIA controlado, a sub-base de pavimentação industrial interna ou a remediação de áreas degradadas pela própria operadora.
Lodo primário e lodo biológico da ETE
O lodo primário sai do clarificador físico-químico da Estação de Tratamento de Efluentes e contém fibra, celulose e lignina dispersas, com DBO5 (Demanda Bioquímica de Oxigênio) baixa. A geração é de 15 a 20 kg/ton úmido, totalizando 375 a 500 mil ton/ano no Brasil. O lodo biológico sai do reator aerado de lodos ativados secundário, com microbiota dominada por Bacillus, Pseudomonas, Achromobacter, Lactobacillus e Vibrio. Ambos são Classe IIA orgânica biodegradável, encaminhados a Land Application após estabilização ou a cogeração em caldeira de biomassa após secagem em prensa rolling drum.
Casca, nó e rejeito: a base da cogeração interna
Casca de eucalipto e pinus, separada no tambor de descascamento pré-cozimento, é o principal biocombustível interno: alimenta a caldeira de recuperação e sustenta cogeração de 2.000 a 4.500 MWh/ano em planta média, com excedente exportado ao SIN e geração de CBIO. Nó (knots) é fibra mal-cozida peneirada pós-digestor, retornada ao recozimento ou enviada à caldeira de recuperação. Rejeito reúne filtros, telas, finos e impurezas do caustic recovery cycle e segue para coprocessamento em forno de clínquer conforme CONAMA 499/2020, com blenda inferior a 10%. A internalização desses fluxos distingue uma planta Kraft moderna, reduzindo emissão fóssil e o custo de gás natural ou óleo combustível evitado.
Classificação NBR 10004 dos resíduos Kraft
A maioria dos fluxos é Classe IIA (não-perigoso, não-inerte, orgânica biodegradável): dregs, lodo primário, lodo biológico, nó e casca seca. Grits e casca úmida pré-pré-tratamento podem ser classificados como Classe IIB (inerte) quando a fração orgânica é desprezível. Nenhum fluxo Kraft padrão é Classe I (perigoso), o que diferencia esse setor de geradores como curtumes com cromo III ou refino de bauxita Bayer com lama vermelha. A caracterização exige lixiviação NBR 10005, solubilização NBR 10006 e ensaios de matéria orgânica, NPK, CTC (Capacidade de Troca Catiônica) e metais pesados.
Cinco rotas Seven para resíduo Kraft
A primeira rota é Land Application: aplicação agronômica controlada de dregs e lodo primário em solos do Cerrado, Pampa e Mata Atlântica regenerativa, conforme CONAMA 481/2017 (compostagem industrial) e CONAMA 375/2006 (lodos ETE), com receita ao gerador de R$ 80 a R$ 280/ton. A segunda é cogeração biomassa em caldeira de recuperação alimentada por casca, lodo seco e lignina, com vapor para o processo e energia exportada ao SIN (Sistema Interligado Nacional), gerando CBIO no RenovaBio e similar à lógica aplicada à casca de arroz CCA em engenhos. A terceira é coprocessamento em cimenteira conforme CONAMA 499/2020. A quarta é aterro Classe IIB inerte para grits e cascas mineralizadas. A quinta é a biorefinaria emergente: lignina, furfural, vanilina, ácidos orgânicos e nanocelulose CNF e CNC, em fase pré-comercial no Brasil entre 2020 e 2030.
Operadores brasileiros de celulose Kraft
Suzano opera Mucuri (BA), Aracruz (ES), Três Lagoas (MS), Imperatriz (MA), Limeira (SP) e o Projeto Cerrado (MS), com caldeira de recuperação em Mucuri processando 1 milhão ton/ano de lodo, dregs, grits e lignina, e cogeração de 350 MW (200 MW exportados ao SIN). Klabin opera Ortigueira e Telêmaco Borba (PR), Otacílio Costa e Correia Pinto (SC), com cogeração de 270 MW e adesão ao RenovaBio. Bracell opera Lençóis Paulista (SP) e Camaçari (BA), com biorefinaria pré-comercial de dissolved pulp. Eldorado opera Três Lagoas e Inocência (MS). Veracel opera Eunápolis (BA). CMPC Riocell opera Guaíba (RS). International Paper opera Mogi Guaçu (SP). Stora Enso opera Verá (MS). A representação setorial é feita pela IBÁ — Indústria Brasileira de Árvores e pela ABTCP — Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel, com certificação majoritária pela FSC — Forest Stewardship Council.
Protocolo Seven em cinco etapas
A etapa 1 é o mapeamento do gerador: volume mensal por fluxo, turno produtivo e composição via XRF e ICP-MS, com matéria orgânica, umidade, pH e granulometria. A etapa 2 é a caracterização química: lixiviação NBR 10005, solubilização NBR 10006, CTC, NPK e metais pesados, com classificação final pela NBR 10004 (ABNT). A etapa 3 é a decisão de rota: Land Application agronômica, cogeração biomassa, coprocessamento cimenteira, aterro Classe IIB ou biorefinaria, conforme matriz técnica e econômica. A etapa 4 é a logística: silos pneumáticos, IBC (Intermediate Bulk Container), big bag, sinalização ABNT NBR 7500 e 13231, ANTT 5848 MOPP (Movimentação de Produtos Perigosos quando aplicável) e rastreabilidade SINIR via MTR (Manifesto de Transporte de Resíduos), CDF (Certificado de Destinação Final) e CADRI quando exigido pelo órgão estadual. A etapa 5 é o dossiê: CETESB, IBAMA CTF, RAPP, IBÁ, ABTCP, FSC, ESRS E5+E2+E1+E3, GRI 306-4, IFRS S2 e CDP A list sob CSRD.
Caso real: planta Kraft de 1,2 milhão ton celulose/ano
Uma planta brasileira de 1,2 milhão ton celulose/ano (faixa Veracel ou Eldorado planta única) gera aproximadamente 4.200 ton de dregs, 1.500 ton de grits, 22.000 ton de lodo primário, 12.000 ton de lodo biológico, 15.000 ton de casca, 3.000 ton de nó e 1.500 ton de rejeito, totalizando cerca de 59.200 ton/ano de resíduo sólido. A operação Seven distribui assim: 35% Land Application agronômica (20.000 ton com R$ 1,8 milhão de receita), 45% cogeração biomassa (26.000 ton, 3.500 MWh/ano com R$ 1,4 milhão de venda ao SIN e R$ 8 milhões em vapor evitado), 12% coprocessamento cimenteira (7.000 ton com R$ 580 mil de custo) e 8% aterro Classe IIB (5.000 ton). A economia consolidada chega a R$ 24 milhões/ano frente a um cenário de descarte integral, alimentando disclosure ESRS E5+E2+E1+E3 sob CSRD primeira temporada 2025, CDP A list, CBIO RenovaBio e certificação FSC.
Integração ESG e frameworks regulatórios
Os fluxos Kraft conectam-se diretamente a ESRS E5 (Resource Use and Circular Economy), E2 (Pollution), E1 (Climate Change) na cogeração e E3 (Water and Marine Resources). GRI 306-4 (Waste diverted from disposal) reporta a fração desviada de aterro. IFRS S2 (Climate-related Disclosures) cobre emissões evitadas. Suzano, Klabin e Bracell já figuram em CDP A list e mantêm metas validadas pelo SBTi. A integração com agências ESG ratings (MSCI, Sustainalytics, ISS, S&P Global) é monitorada pelo Climate Action 100+ e B Corp serve como referência adjacente. A base legal brasileira é a Lei 12.305/2010 PNRS e o IFM (Improved Forest Management) sustenta créditos florestais. A lógica de classificação dialoga com fluxos como terra ativa de descoramento e resíduos de cervejaria.
FAQ — Perguntas Frequentes
O que é dregs na indústria de celulose Kraft?
Dregs é o lodo do clarificador do licor verde, com sulfeto de sódio, óxido de cálcio, silicato e matéria orgânica de wood debris. Tem pH 11 a 13 e classificação ABNT NBR 10004 Classe IIA. A geração média é 3 a 7 kg/ton de celulose.
Qual a diferença entre dregs e grits?
Dregs vem do clarificador do licor verde, é orgânico-mineral e segue rota agronômica. Grits vem do forno calcário (lime kiln), é predominantemente mineral (CaCO3, CaO, sílica) e segue rota de aterro Classe IIB ou cogeração. Os dois resíduos são complementares no ciclo regenerativo Kraft, mas têm composição distinta.
Resíduo de celulose Kraft pode ir para aplicação agronômica?
Sim. Dregs e lodo primário Kraft são aplicados como condicionadores de solo no Cerrado e no Pampa, conforme CONAMA 481/2017 (compostagem industrial) e CONAMA 375/2006 (lodos ETE). O pH alcalino atua como calcário substituto, com receita ao gerador de R$ 80 a R$ 280/ton.
Casca de eucalipto da celulose Kraft é resíduo ou biocombustível?
Casca de eucalipto e pinus pré-cozimento é classificada como Classe IIB inerte e usada majoritariamente como biocombustível interno na caldeira de recuperação, sustentando cogeração de 2.000 a 4.500 MWh/ano em planta média. Excedentes podem ser vendidos a R$ 80 a R$ 220/ton.
Quem são os maiores produtores de celulose Kraft no Brasil?
Suzano lidera com 14 milhões ton/ano em sete plantas (Mucuri, Aracruz, Três Lagoas, Imperatriz, Limeira, Suzano, Cerrado). Klabin produz 5 milhões ton/ano em quatro plantas (PR e SC). Bracell, Eldorado, Veracel, CMPC Riocell, International Paper e Stora Enso completam o ranking nacional, todos certificados FSC.
Conclusão: o próximo passo Seven
Para o gerente de planta de celulose Kraft em Suzano, Klabin, Bracell, Eldorado ou Veracel, a Seven Resíduos atua nos fluxos não-internalizados pela caldeira de recuperação: dregs para Land Application, grits para aterro Classe IIB, lodo biológico excedente para coprocessamento e rejeito para forno de clínquer. O protocolo de cinco etapas — mapeamento, caracterização, rota, logística e dossiê — entrega compliance NBR 10004, CONAMA 481/2017, CONAMA 375/2006, CONAMA 499/2020, CTF IBAMA, FSC, CDP A list e disclosure ESRS sob CSRD. Solicite o diagnóstico técnico em sevenresiduos.com.br e converta os 30 a 45 kg/ton de resíduo sólido Kraft em receita agronômica, MWh exportado ao SIN e nota máxima nos rankings ESG da sua planta.



