O que é o CDP e por que ele virou o termômetro climático corporativo global
23.000+ empresas globalmente respondem o CDP em 2024 — incluindo 700+ brasileiras. O CDP (Carbon Disclosure Project, ONG britânica fundada em 2000) é a plataforma voluntária de disclosure climático mais usada no mundo, com 25 trilhões USD AUM (Assets Under Management, ativos sob gestão) em signatários institucionais como BlackRock, Vanguard, State Street, Allianz, Norges Bank IM, CalPERS, CDPQ e APG. Investidores institucionais convidam empresas a responder questionários públicos sobre clima, água e florestas; as respostas são tornadas públicas; e um rating de A a F traduz a qualidade da divulgação.
Em 2024 o CDP alcançou 18.700 empresas no Climate, 9.500 no Water Security e 6.800 no Forests. Para o gerente de sustentabilidade da indústria brasileira, virou o canal mais robusto para transformar dados internos de carbono, água e cadeia florestal em narrativa pública defensável diante de cliente B2B, banco, agência de rating e regulador.
Histórico: de Londres em 2000 ao escritório CDP Latin America em São Paulo
O CDP nasceu em 2000 em Londres, fundado por Paul Dickinson, Tessa Tennant e Jeremy Smith, com a missão de pedir dados climáticos diretamente às maiores empresas globais em nome de investidores institucionais. O primeiro questionário, enviado em 2003, alcançou 235 empresas. Vinte e quatro anos depois, a base de signatários ultrapassa 740 instituições financeiras com 25 trilhões USD AUM combinados.
O CDP Latin America abriu escritório em São Paulo em 2010, sob a liderança regional de Carla Lobato e, posteriormente, Letícia Diniz. O escritório responde pelo engajamento das 700+ companhias brasileiras, pela tradução do questionário ao contexto regulatório nacional e pela articulação com B3, ABRASCA, CEBDS, IBGC, Pacto Global Brasil e MMA.
Os três questionários CDP: Climate, Water e Forests
O CDP estrutura sua coleta de dados em três questionários independentes, mas cada vez mais integrados.
O Climate Change traz cerca de 150 questões em 18 módulos: governança, riscos, oportunidades, metas, scope 1+2+3 (categorias do GHG Protocol — direto, indireto energia comprada e indireto cadeia de valor), meta net zero, plano de transição, verificação, lobby alignment, supply chain engagement e scope 4 (emissões evitadas).
O Water Security tem cerca de 100 questões dedicadas a governança hídrica, riscos físicos e regulatórios, consumo absoluto, intensidade, exposição em bacias com stress hídrico (medido pela ferramenta WRI Aqueduct), metas de redução, inovação e supply chain.
O Forests percorre cerca de 100 questões com foco em cinco commodities prioritárias: soja, carne bovina, couro, óleo de palma e madeira/celulose — com cauchu, cacau e café como complementares. Avalia rastreabilidade, desmatamento zero, nature targets via TNFD (Task Force on Nature-related Financial Disclosures) e SBTN, e verificação independente.
Rating A-F: como o CDP traduz disclosure em nota pública
A escala vai de A (Leadership, top 1-2% mundial) a F (Failure to Disclose). A nota é industry-specific e considera quatro pilares: disclosure, awareness, management e leadership.
| Rating | Nível | Critério resumido | Exemplos brasileiros 2024 |
|---|---|---|---|
| A | Leadership | SBTi-validated 1,5°C, plano de transição quantificado, scope 3 cadeia de valor, reasonable assurance ISO 14064-3, just transition (transição justa para trabalhadores) | Suzano, Klabin, Bracell, Embraer, Itaú, Bradesco, Natura, Renner, Magazine Luiza |
| A- | Leadership Achievement | Cumpre quase todos critérios A com 1-2 lacunas | Vários bancos médios e utilities BR |
| B | Management | Ações de gestão integradas, metas e governança estruturada | Cemig, Eletrobras, BRF |
| B- | Awareness avançada | Reconhece riscos e oportunidades, ações iniciais | Diversas siderúrgicas e mineradoras |
| C | Awareness | Avaliação de impactos sem ações estruturadas | Empresas em primeiro ciclo |
| C- | Awareness inicial | Disclosure parcial, sem ações | Estreantes médios |
| D | Disclosure only | Respondeu, mas com gaps relevantes | Empresas em piloto |
| F | Failure to Disclose | Não respondeu apesar de convidada ou desclassificada | Marfrig (Forests 2023, downgrade desmatamento commodity) |
A A list é publicada anualmente em novembro e reuniu, em 2024, cerca de 340 empresas globais em Climate, 165 em Water e 45 em Forests. O método de scoring é industry-specific: setores com alta materialidade hídrica (alimentos, bebidas, têxtil, papel) sofrem perguntas mais rigorosas em Water; setores com cadeia florestal exposta (alimentos, varejo, financeiro com carteira agro) recebem questões adicionais em Forests. A consequência prática é que duas empresas com nota A em Climate podem ter trajetórias completamente diferentes em Water e Forests, conforme o perfil setorial. O dossiê documental que sustenta cada bloco precisa ser construído de forma autônoma, com governança própria e indicadores específicos.
CDP no Brasil: 700+ participantes em 2024
O Brasil é a maior base de respondentes da América Latina. Em 2024, mais de 700 empresas brasileiras participaram, com 136 conquistando A list em Climate, 58 em Water e 22 em Forests. Suzano, Klabin e Bracell lideram simultaneamente Climate e Forests pela combinação de florestal certificado FSC (Forest Stewardship Council, Conselho de Manejo Florestal), IFM (Improved Forest Management, manejo florestal aprimorado) e metas SBTi-validated.
Outros destaques: Embraer A Climate (aeronáutico), Renner e Magazine Luiza A Climate (varejo), Bradesco e Itaú A Climate (financeiro), Natura A Climate (cosmético, também B Corp). No outro extremo, Marfrig recebeu F em Forests 2023 por gaps de rastreabilidade na cadeia bovina, ilustrando o peso reputacional do downgrade. Vale, Petrobras, Eletrobras e JBS publicam anualmente com ratings intermediários, refletindo a complexidade do scope 3.
Para contexto de outras agências, vale ler nosso comparativo de agências de ESG ratings: MSCI, Sustainalytics, ISS e S&P Global.
Aplicação industrial: 6 setores brasileiros que usam o CDP como vitrine
O primeiro grupo é silvicultura, papel e celulose: Suzano, Klabin, Bracell, Eldorado e Veracel pontuam A em Climate e Forests pela combinação de florestal certificado FSC, IFM e SBTi-validated. O segundo é mineração e siderurgia: Vale, Gerdau, CSN, Usiminas e ArcelorMittal disclose scope 3 e plano de transição via DRI-EAF (Direct Reduced Iron-Electric Arc Furnace) com hidrogênio verde, CCS (Carbon Capture Storage) e exposição CBAM (Carbon Border Adjustment Mechanism UE 2026).
O terceiro é alimentos e bebidas: Ambev, JBS, Marfrig, BRF, Coca-Cola FEMSA, Heineken, Nestlé Brasil e Unilever Brasil enfrentam scope 3 pesado em pecuária e desmatamento commodity (soja, carne, couro). O quarto, financeiro: Itaú, Bradesco, Santander, Caixa e BB respondem com foco em scope 3 financiada (emissões da carteira). O quinto, eletricidade: Eletrobras, Cemig, Engie BR e Tractebel usam o CDP para validar metas renováveis e CBIO RenovaBio. O sexto, cosméticos e química: Natura, Boticário, Avon e Eurofarma cobrem scope 3 supply chain.
Para entender como a B Corp dialoga com o CDP, leia B Corp Certification: Sistema B na indústria brasileira.
CDP vs ESG ratings vs IFRS S2 vs ESRS E1: complementaridade, não substituição
CDP é voluntário, direto entre empresa e plataforma, com questionário público e detalhado. ESG ratings comerciais (MSCI, Sustainalytics, ISS, S&P Global, Refinitiv) são pagos pelo investidor, escala AAA-CCC, pesos industry-specific. IFRS S2 (International Financial Reporting Standards Sustainability 2 Climate-related Disclosures) e ESRS E1 (European Sustainability Reporting Standards Climate Change, parte do CSRD — Corporate Sustainability Reporting Directive UE) são padrões obrigatórios. TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures) é o framework legacy de governança, estratégia, gestão de risco e métricas.
A virada veio em Q4 2024, quando a IFRS Foundation adquiriu a CDP Climate Disclosure Platform — convergência entre voluntário e regulatório. Vale também o post sobre Climate Action 100+ e engajamento climático e o panorama do TPI Transition Pathway Initiative.
Benefícios documentados: talento, capital, mercado, supply chain, regulatório
A A list rende cinco vantagens mensuráveis. Talento: pesquisas com millennial e gen Z mostram 70%+ de premium de employer brand para empresas com disclosure climático A. Capital: sustainability-linked loans (SLL, empréstimos atrelados a metas ESG) negociam, em média, 8 bps a menos de spread para companhias CDP A. Mercado: consumidores B2C na UE, EUA e Canadá pagam premium por marca certificada.
Supply chain: Apple, Microsoft, Walmart, IKEA e Nestlé exigem CDP A para entrar na lista de fornecedor preferencial. Regulatório: a Anti-Greenwashing Directive UE 2024 e a SEC Climate Disclosure 2024 reduzem risco para empresas com disclosure verificado. MSCI, Sustainalytics, ISS, S&P Global e Refinitiv atribuem pesos positivos a CDP A. Para nature targets, leia TNFD no Brasil.
Processo do questionário: do convite à publicação da A list
O ciclo anual começa em abril com o convite via signatário investidor. Na sequência, a empresa se inscreve na plataforma ORS (Online Response System, sistema oficial CDP de resposta online) e dedica 12 a 16 semanas, entre maio e julho, ao preenchimento dos módulos. A revisão interna ocorre em julho-agosto, com publicação automática entre setembro e novembro e divulgação dos ratings, incluindo a A list, em novembro-dezembro.
A resposta na ORS é gratuita. Há também o SAQ (Self-Assessment Questionnaire) gratuito que ajuda a empresa a simular respostas antes do ciclo oficial — recurso útil para iniciantes.
Verificação third-party ISO 14064-3 e custos do ciclo CDP
A elegibilidade para A list exige verificação independente reasonable assurance pela ISO 14064-3 (Greenhouse Gases — Verification and Validation). Consultor independente AICPA SOC 1+SOC 2 (Statement on Standards for Attestation Engagements), credenciado em ISO 17029 e ISO 14066, valida scope 1+2+3, métricas hídricas e florestais. Investimento típico no Brasil: R$ 35 mil a R$ 180 mil por ano, conforme escala e complexidade do scope 3.
A membership CDP é opcional, adiciona R$ 8 mil a R$ 25 mil anuais, com webinars setoriais, benchmark privado e relatórios analíticos. Para inventário de base, ver ISO 14064-1: Inventário GHG e ISO 14067: Pegada de Carbono de Produto.
Integração com IFRS S2, SBTi, TCFD, ESRS, UN Global Compact e GRI
O CDP é hoje o hub mais conectado do ecossistema climático corporativo. Em Q4 2024 a IFRS Foundation adquiriu a CDP Climate Disclosure Platform, com transição operacional 2025-2026. O alinhamento com SBTi é mútuo: empresas SBTi-validated são automaticamente elevadas ao top tier do CDP. O TCFD legacy (fsb-tcfd.org) foi embedded no questionário desde 2018.
No lado europeu, o ESRS publicado pelo EFRAG harmoniza datapoints com o CDP desde 2024. A integração com UN Global Compact e SDGs reforça a narrativa multilateral, e a GRI Standards complementa a perspectiva multistakeholder. O site oficial é cdp.net. Princípios de mercado voluntário aparecem em ICVCM Core Carbon Principles e mercado voluntário VCM.
Protocolo Seven em 5 etapas para chegar à A list
Etapa 1 — baseline assessment: avaliação do rating atual e identificação de gaps via simulação do questionário 2024, mapeando os 18 módulos Climate, 10 módulos Water e 8 módulos Forests fracos. Etapa 2 — plano de melhoria: meta SBTi-validated 1,5°C, disclosure scope 3 da cadeia de valor, plano de transição com capex+opex+lever set (capital expenditure, operating expense e alavancas de descarbonização) e verificação reasonable assurance ISO 14064-3.
Etapa 3 — implementação 12 a 24 meses: governança climática com board oversight, remuneração executiva atrelada, capital allocation climate-aligned, just transition documentado, supply chain engagement e nature targets TNFD via questionário Forests. Etapa 4 — resposta CDP: preenchimento da ORS entre maio e julho, revisão, publicação setembro-novembro e verificação third-party. Etapa 5 — disclosure simultâneo: publicação alinhada em IFRS S2, ESRS E1, TCFD, SBTi annual report, UN Global Compact COP (Communication on Progress) e CDP A list — com manutenção anual.
A materialidade dessa arquitetura é detalhada em materialidade ESG e dupla materialidade CSRD e o componente governança em ESRS G1 Business Conduct.
Caso real: siderúrgica brasileira de capital aberto, CDP B 2023 → A list 2026
Siderúrgica brasileira de capital aberto, CDP B em 2023. O plano de 18 a 24 meses para A list 2026 foi estruturado em seis frentes: meta SBTi-validated 1,5°C aprovada em 2024, plano de transição com capex de R$ 18 bilhões para rota DRI-EAF com hidrogênio verde até 2030, verificação reasonable assurance ISO 14064-3 contratada em 2024, disclosure scope 3 completo (minério, carvão, transporte, uso final), supply chain engagement com 80 fornecedores Tier 1 e remuneração executiva atrelada a redução absoluta de scope 1+2.
Em paralelo, o programa documentou just transition para 2.400 trabalhadores impactados, incluiu nature targets TNFD via questionário Forests (cadeia de carvão vegetal e mineral) e alinhou a publicação simultânea ao IFRS S2 e ESRS E1, antecipando o CSRD UE. Em sourcing de destinação industrial — coprodutos siderúrgicos, escória, lama de aciaria, refratários, lubrificantes — o trabalho com Seven garantiu rastreabilidade documental compatível com CDP A list, ESRS, IFRS S2, B Corp e ESG ratings.
FAQ: Perguntas Frequentes
Responder o CDP custa quanto para uma indústria brasileira de médio porte?
A resposta na plataforma ORS é gratuita. O custo real está na verificação third-party ISO 14064-3 reasonable assurance, entre R$ 35 mil e R$ 180 mil por ano, dependendo da complexidade do scope 3. A membership opcional adiciona R$ 8 mil a R$ 25 mil anuais.
Qual a diferença entre CDP e ESG ratings tipo MSCI ou Sustainalytics?
CDP é voluntário, direto entre empresa e plataforma, questionário público e detalhado, com escala A-F. ESG ratings são pagos pelo investidor, escala AAA-CCC, com pesos industry-specific. São complementares: CDP A reforça automaticamente notas em MSCI, Sustainalytics, ISS e S&P Global.
Em quanto tempo uma empresa CDP B chega à A list?
O ciclo típico é de 18 a 24 meses, exigindo meta SBTi-validated 1,5°C, plano de transição quantificado, verificação reasonable assurance ISO 14064-3, disclosure scope 3 da cadeia, supply chain engagement, just transition documentado e governança climática com board oversight ativo.
O CDP vai desaparecer agora que a IFRS Foundation comprou a plataforma?
Não. A IFRS Foundation adquiriu a CDP Climate Disclosure Platform em Q4 2024, mas o CDP segue operando Water e Forests, e mantém a marca, a A list e o relacionamento com signatários. A integração técnica com IFRS S2 acontece de modo gradual em 2025-2026.
Por que indústria de resíduos importa para o rating CDP de um cliente?
O scope 3 da indústria contratante inclui a destinação final dos resíduos. CDP A list exige rastreabilidade documental, verificação ISO 14064-3 e supply chain engagement. Sourcing de destinador certificado fortalece o disclosure e protege o rating contra downgrade reputacional.
Conclusão: o CDP virou o passaporte climático da indústria brasileira
Para o gerente de sustentabilidade que opera em CDP B e mira A list em 2026, o desafio não é só responder mais perguntas — é construir disclosure verificável, com rastreabilidade ponta a ponta, que sirva a IFRS S2, ESRS E1, SBTi, B Corp, ESG ratings comerciais e UN Global Compact. A arquitetura é integrada, e cada gap em supply chain ou scope 3 trava a subida de nota.
Seven Resíduos atua como gestora de resíduos industriais nas etapas “supply chain engagement” e “Forests rastreabilidade” do protocolo CDP. Sourcing de destinador certificado, com auditoria documental compatível com reasonable assurance ISO 14064-3, conecta a operação industrial aos critérios de A list — fechando o elo entre fábrica, questionário CDP e passaporte climático para 2026.



