A reunião que começou com quatro problemas em cima da mesa
Anderson, gerente operacional, e Patricia, gerente de meio-ambiente de um curtume em Estância Velha (RS), abriram a reunião de auditoria do Leather Working Group em uma terça de março. Em cima da mesa havia quatro pastas. A primeira pasta era a cobrança do Hermès. A segunda, da Decathlon. A terceira era o laudo do médico do trabalho. A quarta, a renovação de outorga.
O curtume tinha 280 funcionários e processava 480 peles bovinas por dia. Em wet blue, wet white, crust e acabado. Tudo parecia operacional. Só que, no fundo do pátio, oito caçambas misturavam aparas de cinco fases diferentes. Sem identificação. Sem laudo. Sem MTR.
Quando o auditor do Leather Working Group (LWG) pediu o rastreio de quatro toneladas, ninguém soube responder. A pergunta de Patricia foi direta: a coleta dessas aparas é Classe I ou Classe IIA? A resposta certa muda receita, multa e a auditoria toda. Esse post conta o que Anderson e Patricia descobriram, e o que todo curtume brasileiro precisa olhar.
O que é apara, raspa e refilo de couro
Apara é a sobra de couro cortada no ajuste de tamanho da peça. Refilo é a beirada cortada para igualar a borda. Raspa é a camada interna retirada para dar espessura uniforme. Os três nascem em pontos diferentes da linha, mas chegam ao pátio misturados quando ninguém segrega.
A diferença entre eles parece pequena. Mas ela define o destino do resíduo. Uma apara wet blue contém sulfato de cromo trivalente. Uma raspa de pré-curtimento contém carne, gordura e pelo. Misturadas, viram Classe I no atacado. Separadas, uma rende dinheiro e a outra vai para coprocessamento.
Por isso o primeiro passo da gestão de resíduos do curtume é nomear cada fluxo. Cinco recipientes identificados. Um por fase do curtimento. Em pátio coberto e impermeabilizado.
As 5 fases do curtimento e o resíduo de cada uma
A primeira fase é o pré-curtimento, também chamado de ribeira. Aqui sai apara de carne, gordura, pelo e raspa da pele crua. É matéria orgânica. Vai para Classe IIA e abre porta para colágeno, pet food e adubo.
A segunda fase é o curtimento wet blue (couro azulado pela reação com sal de cromo). Saem aparas, rebarbação e refilo da pele já curtida. Aqui mora o cromo. É Classe I.
A terceira fase é o recurtimento wet white (curtimento sem cromo, com tanino vegetal ou sintético). Saem refilos sem cromo. Quando o laudo confirma ausência, fica em Classe IIA. A quarta fase é o crust (couro semi-acabado em tom natural). Sai raspa e refilo do ajuste de cor e brilho. Aqui pode aparecer pigmento metálico.
A quinta fase é o acabamento, com verniz, pintura e laminação. Saem refilos com nitrocelulose, poliuretano, anilina e pigmento. Quando o pigmento tem chumbo, cádmio ou cromo, volta para Classe I.
Por que aparas wet blue são Classe I (cromo III e cromo VI)
A pele entra no fulão wet blue com sulfato básico de cromo trivalente. Esse cromo III não é cancerígeno por si só. O problema é o que acontece depois. Durante a secagem, a armazenagem e o atrito da rebarbação, parte desse cromo III oxida para cromo hexavalente (cromo VI).
O cromo VI é classificado como cancerígeno classe 1 pela International Agency for Research on Cancer (IARC). É o mesmo nível do amianto e do benzeno. Inalado em pó de couro, ele chega ao pulmão. Em contato com pele suada, ele entra pela corrente. Por isso a aparas wet blue precisa de laudo XRF lote a lote.
Mesmo sem o cromo VI presente, o cromo III já enquadra a apara como Classe I pela NBR 10004 (Norma Brasileira para classificação de resíduos sólidos). É concentração maior que o limite de lixiviação. Daí o caminho obrigatório de coleta certificada com MTR (Manifesto de Transporte de Resíduos rastreado no Sistema Nacional de Informações sobre Gestão de Resíduos Sólidos, o SINIR).
A NR-15 Anexo 13 e o risco cancerígeno
A NR-15 Anexo 13 é a Norma Regulamentadora 15 do Ministério do Trabalho, no anexo que trata de agentes químicos cancerígenos. O cromo VI está lá. O texto vale tanto para o curtume quanto para quem manuseia a apara depois.
Na prática, isso significa exposição registrada em programa de gerenciamento de risco. CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) obrigatória quando há incidente. Insalubridade grau máximo. Adicional de 40% sobre o salário mínimo. Médico do trabalho avalia anualmente, com exame de cromo urinário e função renal.
O auditor do Leather Working Group olha esse pacote inteiro. Sem ele, a auditoria Gold cai para Silver ou perde a certificação. E aí o sourcing Hermès, LVMH e Decathlon some no mês seguinte. Patricia já sabia disso quando abriu a pasta do médico do trabalho.
A receita escondida: colágeno, pet food, adubo orgânico
A aparas pré-curtimento orgânica vale dinheiro. A indústria de colágeno e gelatina compra para Gelita, Rousselot e PB Leiner. O preço do quilo entregue na planta varia entre R$ 0,40 e R$ 1,80 por quilo. Para o curtume de 480 peles por dia, isso pode significar receita mensal de quatro a oito mil reais.
A raspa do pré-curtimento sem cromo abre rota para pet food e ração animal. Beraca, Adimax e Brasil Agro absorvem volume regional. O adubo orgânico de alta qualidade chega a R$ 0,20 a R$ 0,80 por quilo. A apara wet white sem cromo, comprovada por laudo, segue o mesmo destino do colágeno.
Esse dinheiro só aparece quando a segregação é feita na origem. Caçamba misturada perde valor. O sucateiro local pagava bem no curtume de Anderson, mas misturava wet blue com pré-curtimento. Sem laudo XRF, perdia o preço do colágeno e expunha o curtume a auto. A coleta segregada da Seven recupera essa margem.
Quem precisa olhar: 7 setores correlatos
O curtume é o primeiro elo. Mas a apara não para nele. Quem compra couro também compra o risco da cadeia. Sete setores precisam olhar essa coleta como auditoria própria.
Calçadista de Franca, Birigui, Jaú, Novo Hamburgo e Sapiranga (Hering, Olympikus, Vulcabras, Bibi, Pampili). Marroquinaria e bolsa (Le Postiche, Capodarte, Schutz, Arezzo, Santa Lolla). Vestuário e luva industrial. Automotivo de banco e volante (VW, GM, Stellantis, Toyota, Honda, Mercedes). Decoração e móveis (Tok&Stok, Etna, Marabraz). EPI de couro. E o varejo de moda exportadora.
Cada um deles entra na CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive europeia, vigência 2026 com a primeira temporada do ESRS E5) pelo Scope 3 categoria 5. Se o curtume fornecedor não tem rastreabilidade da apara, o cliente carrega o passivo no relatório. Por isso a auditoria conjunta de Hermès, LVMH e Decathlon não negocia.
As 5 etapas da coleta Seven com laudo XRF
A primeira etapa é a segregação por fase. Cinco recipientes identificados, um para cada momento do curtimento. Pré, wet blue, wet white, crust e acabado. Cada recipiente em pátio coberto, impermeabilizado e sinalizado.
A segunda etapa é o laudo XRF (fluorescência de raios-X) em cada lote de aparas Classe I. O ensaio confirma se há cromo VI presente. Se há, o roteamento obrigatório é coprocessamento. Se não, abre rota para aterro Classe I licenciado ou para indústria de colágeno na linha wet white.
A terceira etapa é a coleta agendada com pesagem, identificação e emissão do MTR no SINIR. Transporte com motorista treinado em ANTT 5848 e Movimentação Operacional de Produtos Perigosos (MOPP) para Classe I cancerígeno. A quarta etapa é o roteamento por fase e classe. Wet blue para coproc CONAMA 499 (resolução que regula coprocessamento em cimenteiras). Wet white para colágeno. Pré-curtimento para pet food. Acabado positivo para aterro com CADRI estadual (Certificado de Aprovação de Destinação de Resíduos Industriais).
A quinta etapa é o disclosure. CDF (Certificado de Destinação Final) rastreável por fase, com quilos recuperados e toneladas coprocessadas. Integração com Leather Working Group, IDH Sustainable Trade Initiative (parceria couro sustentável da Holanda), CSRD ESRS E5, CDP Forests, EcoVadis, SMETA e B Corp.
Caso real: curtume em Estância Velha, Anderson e Patricia
Voltando à reunião de Anderson e Patricia. O levantamento mensal apareceu assim: aparas wet blue 6,2 toneladas+wet white 2,8 toneladas+pré-curtimento 2,1 toneladas+crust e acabado 1,8 tonelada. O lodo de ETE separado vinha na rotina antiga e foi mantido sob fluxo paralelo já amadurecido.
Implantação em 90 dias. Cinco recipientes identificados em duas linhas. Laudo XRF semanal. MTR toda terça. Roteamento: 6,2 ton wet blue para coproc Holcim Esteio (R$ 3.300 custo); 2,8 ton wet white para Gelita (R$ 1.260 receita); 2,1 ton pré-curtimento para pet food regional (R$ 590 receita); 1,8 ton acabado com XRF positivo cromo VI para aterro Classe I CADRI (R$ 1.500 custo).
Resultado em 12 meses. Leather Working Group Gold aprovado. Sourcing Hermès, LVMH, Decathlon e ZARA renovado. Outorga RS renovada. NR-15 com conformidade respiratória. EcoVadis Silver→Gold. CDP Forests A list. ESRS E5 reportado. Economia R$ 22 mil/ano vs cenário aterro+R$ 280 mil multa evitada.
O que conecta com ESG (LWG, IDH, CSRD, CDP Forests)
O Leather Working Group é a certificação voluntária internacional do curtume. Os clientes europeus de moda e luxo cobram o selo. O IDH Sustainable Trade Initiative é a parceria holandesa que organiza couro sustentável globalmente. A CSRD ESRS E5 é a diretiva europeia de relatórios de sustentabilidade, com pilar Resource Use and Circular Economy.
A CDP Forests classifica o couro como commodity sob risco florestal pela origem bovina. Reporte anual com dado primário. EcoVadis mede o desempenho geral do fornecedor. SMETA audita o lado social. B Corp certifica empresas com tripé econômico, social e ambiental balanceado.
Esses seis instrumentos puxam o mesmo dado. O rastreio da apara. Quem coleta, quanto, em que fase, com que rota e com que comprovação de destino. Quando a Seven entrega o CDF rastreável, os seis relatórios bebem do mesmo poço. Anderson e Patricia pararam de fazer planilha paralela.
Tabela: 5 fases do curtimento com classe, rota Seven e receita
| Fase do curtimento | Aparas e refilo gerados | Classe NBR 10004 | Rota Seven | Receita ou custo R$ | Cliente final tipico |
|---|---|---|---|---|---|
| Pré-curtimento (ribeira) | Carne, gordura, pelo, raspa pele crua | IIA não inerte | Indústria pet food, ração, adubo orgânico | Receita R$ 0,20 a 0,80 por kg | Beraca, Adimax, Brasil Agro |
| Wet blue (cromo III) | Aparas, rebarbação, refilo pele curtida | I perigoso | Coproc cimenteira CONAMA 499 | Custo R$ 380 a 680 por ton | Holcim, Votorantim, Intercement |
| Wet blue (cromo VI confirmado XRF) | Aparas wet blue oxidadas | I perigoso cancerígeno | Coproc obrigatório com queima | Custo R$ 480 a 780 por ton | Holcim Esteio, Cimentos Tupi |
| Wet white (vegetal, sintético) | Aparas e refilo sem cromo | IIA não inerte | Indústria de colágeno e gelatina | Receita R$ 0,40 a 1,80 por kg | Gelita BR, Rousselot, PB Leiner |
| Crust limpo (sem pigmento metálico) | Raspa e refilo do ajuste de cor | IIA não inerte | Reuso interno, aterro IIA | Custo R$ 180 a 380 por ton | Aterro IIA regional |
| Crust com pigmento metálico | Refilo com chumbo, cádmio, cromo | I perigoso | Coproc ou aterro Classe I CADRI | Custo R$ 580 a 1.200 por ton | Aterro Classe I licenciado |
| Acabado (verniz, anilina, poliuretano) | Refilo com nitrocelulose e pigmento | I perigoso | Coproc CONAMA 499 ou aterro Classe I | Custo R$ 580 a 1.200 por ton | Holcim, aterro Classe I |
| Recuperação cromo III wet blue | Cromo recuperado para reuso | Recuperado para insumo | Recuperação química Aquaforte, Brava | Receita R$ 1,80 a 4,80 por kg | Aquaforte, Tessler Hides |
FAQ — Coleta de aparas de couro do curtume
Aparas wet blue contêm sempre cromo VI ou só cromo III?
O wet blue entra com cromo III. Parte oxida para cromo VI no transcorrer da secagem e do atrito da rebarbação. Por isso o laudo XRF lote a lote é a única forma de saber. Sem laudo, presumir cromo VI presente. Coleta com MTR e rota coproc.
Apara wet white sem cromo é Classe I ou Classe IIA?
Wet white é curtimento com tanino vegetal e sintético. Sem cromo. A apara é Classe IIA pela NBR 10004. Com laudo confirmando ausência, abre rota para indústria de colágeno e gelatina. Mistura com wet blue derruba o enquadramento para Classe I e perde a receita.
Preciso emitir MTR para aparas, mesmo sendo só sobra de corte?
Sim. Toda apara de curtume tem origem em processo de couro. Independente do volume, a movimentação interestadual ou para destinador licenciado pede MTR no SINIR. A Seven emite semanal por fase do curtimento, com pesagem na coleta.
Quanto rende a apara para colágeno e pet food em um curtume de 480 peles dia?
No caso real de Estância Velha, 2,8 toneladas wet white renderam R$ 1.260 e 2,1 toneladas pré-curtimento renderam R$ 590. Cerca de R$ 22 mil ao ano de receita líquida quando comparada a 100% aterro. Volume maior escala proporcional.
Quem responde se o curtume fornece e o destinador é irregular?
Responsabilidade solidária pela Lei 6.938 art. 14, parágrafo 1. O curtume responde junto com o destinador. Por isso o sourcing do destinador licenciado pela Seven, com CADRI estadual atualizado e CDF rastreável, blinda o curtume na auditoria LWG e na fiscalização da CETESB ou Fepam.
Conclusão
Anderson e Patricia chegaram ao fim da auditoria com quatro pastas resolvidas. Hermès renovado. Decathlon ativo. Médico conforme. Outorga RS aprovada. Os 12 meses entre caçamba misturada e CDF rastreável por fase mudaram a planta inteira.
Se sua planta também acumula aparas wet blue, wet white, pré-curtimento, crust e acabado em caçambas sem identificação, esse é o momento. Solicite um diagnóstico de coleta de aparas da sua planta com a Seven Resíduos. Cobrimos segregação por fase, laudo XRF, MTR semanal, roteamento por classe e CDF integrado a LWG, IDH, CSRD ESRS E5 e CDP Forests.
Links externos
- Lei 12.305 — Política Nacional de Resíduos Sólidos
- Lei 9.605 art. 54 — Crimes Ambientais
- NR-15 Anexo 13 — agentes químicos cancerígenos
- Leather Working Group — Audit Protocol
- SINIR — Sistema Nacional de Informações sobre Resíduos Sólidos
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