Quando o forno chega ao fim de campanha e ninguém decidiu a rota do refratário
Imagine uma planta industrial de processo térmico no eixo Sudeste, com um forno de grande porte chegando ao fim da campanha — a vida útil do revestimento interno entre duas paradas de retrofit. Quando ela acaba, o revestimento precisa ser demolido e removido.
Nesse trimestre, o gerente de manutenção e a área de meio ambiente recebem três sinais quase juntos. Primeiro, uma parada de retrofit programada que vai gerar, de uma só vez, volume grande de refratário demolido — denso, abrasivo, de logística pesada, sem rota de destinação contratada. Segundo, um laudo preliminar apontando possível cromo-magnesita na zona de queima, o que mudaria a classificação de Classe IIA para Classe I. Terceiro, uma auditoria de cliente cobrando Scope 3 categoria 5 e taxa de desvio de aterro, com o refratário pesando no indicador por ser alto volume.
Uma parada desse tipo libera refratário gasto numa faixa ampla em poucos dias. A decisão de classe e rota precisa estar tomada antes da demolição, não depois que as pilhas já estão no pátio.
O que é refratário e por que ele vira resíduo de alto volume
Refratário é o material que resiste a temperaturas muito altas, acima de 1.000 °C, e reveste internamente fornos, panelas de aço, cubilôs, regeneradores de vidro, fornos de cimento e caldeiras. Não é o produto da fábrica: é o revestimento que protege a estrutura metálica do forno do calor, da escória líquida e do ataque químico.
Durante a campanha, esse revestimento se desgasta por erosão mecânica, choque térmico e penetração de metal ou escória. Quando o desgaste compromete a segurança ou a eficiência, a planta para para o retrofit: o refratário gasto é demolido em blocos e massa, retirado e substituído.
O que torna esse resíduo difícil não é só a química, é a física. Ele sai em blocos densos e pesados, muitas vezes impregnados de escória ou metal solidificado, em volume concentrado numa janela curta de parada. Isso exige planejamento de carga pesada, segregação no momento da demolição e uma decisão de classe que não pode esperar o laudo final chegar semanas depois.
As famílias químicas: por que dois tijolos parecidos não têm o mesmo destino
A classe do refratário depende da sua família química, e famílias diferentes saem do mesmo tipo de equipamento.
O sílico-aluminoso — chamote e alta alumina — reveste forno cerâmico, caldeira e aquecimento; limpo, costuma ser não perigoso. O magnesiano e o dolomítico revestem panela de aço e conversor; em geral não perigosos, mudam de figura quando contêm cromo. A cromo-magnesita (ou magnésia-cromita) reveste a zona de clínquer do forno de cimento e conversores: quando o cromo se oxida no calor, forma cromo hexavalente, ou Cr VI — a forma tóxica e cancerígena do cromo, que torna o material perigoso. O carbono e a grafita revestem cadinho de alto-forno e podem reter metal pesado. A zircônia e o AZS (alumina-zircônia-sílica) revestem o forno de vidro e podem reter chumbo quando há cristal.
Some-se a contaminação cruzada: um sílico-aluminoso limpo na origem pode terminar a campanha impregnado de escória, sal fundido ou clínquer, e essa carga muda a classe. A química do bloco demolido não é a do tijolo virgem instalado anos antes.
Classificação NBR 10004: quando é Classe IIA e quando vira Classe I
A NBR 10004 é a norma brasileira que classifica resíduos sólidos. A Classe IIA, não inerte, cobre a maioria do sílico-aluminoso e magnesiano limpo, sem Cr VI lixiviável e sem metal pesado acima dos limites de ensaio. A Classe IIB, inerte, é rara — praticamente só sílico-aluminoso virgem nunca usado. A Classe I, perigoso, aparece na cromo-magnesita oxidada com Cr VI, no carbono-grafita contaminado por metal, no AZS que reteve chumbo de cristal e no refratário de incinerador com cinza tóxica.
A definição não é visual; vem do laudo: fluorescência de raios X (XRF) para a composição elementar, ensaio de lixiviação pela NBR 10005 e de solubilização pela NBR 10006, com atenção ao Cr VI previsto nos anexos da NBR 10004. Dois blocos idênticos podem ter classes diferentes conforme o histórico do forno.
Setor por setor: refratário típico, classe predominante e cobrança ESG
A tabela mostra o padrão de mercado por setor — não um cliente, mas o esperado de cada cadeia.
| Setor | Refratário típico | Classe predominante | Cobrança ESG típica |
|---|---|---|---|
| Siderurgia (alto-forno, panela, conversor) | Magnesiano, carbono, dolomítico | IIA / Classe I se cromo-magnesita | Scope 3 cat. 5 + ResponsibleSteel + CBAM |
| Cimento (forno de clínquer) | Cromo-magnesita, magnésia-espinélio | Classe I por Cr VI | CSRD ESRS E5 + CDP |
| Vidro (forno, regenerador) | AZS, zircônia, sílica | IIA / atenção a chumbo de cristal | EcoVadis + Scope 3 |
| Fundição (cubilô, forno de fusão) | Sílico-aluminoso, carbono | IIA / Classe I se reteve metal | Scope 3 + SMETA |
| Cerâmica e revestimento | Chamote, alta alumina | IIA | EcoVadis + CDP |
| Petroquímica (forno, reformador) | Alta alumina, fibra cerâmica | IIA / Classe I se catalisador | CSRD + RBA |
| Não-ferrosos (alumínio, cobre) | Carbono, sílico-aluminoso | Classe I se metal/sal fundido | Scope 3 + CDP |
| Energia (caldeira, incinerador) | Sílico-aluminoso, SiC | IIA / Classe I se cinza tóxica | CSRD ESRS E5 |
ResponsibleSteel, EcoVadis, CDP, CSRD, SMETA e RBA são frameworks e auditorias de mercado que cobram rastreabilidade do desvio de aterro — não programas operados pela Seven.
As cinco origens operacionais e a logística pesada da demolição
Cinco frentes concentram quase todo o refratário gasto. A panela e o distribuidor de aciaria trocam revestimento magnesiano ou dolomítico com frequência alta; em geral não perigoso, Classe I se cromo-magnesita. O forno de cimento na zona de queima libera cromo-magnesita ou magnésia-espinélio, Classe I por Cr VI, em grande volume por parada. O forno de vidro — regenerador e soleira — entrega AZS e sílica, não perigoso, com atenção ao chumbo de cristal. O cubilô e o forno de fusão soltam sílico-aluminoso e carbono, Classe I se retiveram metal pesado. E caldeira, forno cerâmico e tratamento térmico geram sílico-aluminoso e fibra cerâmica refratária, com alerta ocupacional próprio.
O desafio comum é a logística: blocos densos, abrasivos, com cantos cortantes, em volume alto e janela curta. Isso pede caçambas e veículos dimensionados para carga pesada e segregação na boca da demolição, separando o que tem rota de reuso do que vai para aterro.
Rotas de destinação: do reuso como agregado ao aterro Classe I
O sílico-aluminoso ou magnesiano limpo tem rota nobre. Um reciclador licenciado pode britar e reclassificar o material como agregado refratário, devolvendo-o à cadeia de produtos refratários. Outra rota é a cimenteira credenciada para coprocessamento sob a CONAMA 499 — resolução que disciplina o coprocessamento em fornos de clínquer —, onde o aluminoso e o magnesiano entram como matéria-prima alternativa, substituindo bauxita ou argila. O refratário com carga orgânica ou de carbono pode ir a coprocessamento energético na mesma resolução.
Sem rota de reuso, a destinação é aterro com CADRI: Classe I para a cromo-magnesita com Cr VI não reaproveitável, Classe IIA para o material não perigoso. Importante: nenhuma dessas etapas físicas — britagem, coprocessamento, aterramento — é executada pela Seven. A Seven coleta, transporta a carga pesada, emite o MTR, obtém o CDF e faz o sourcing do destinador; quem reprocessa é a cadeia licenciada.
O risco de descartar cromo-magnesita como entulho inerte
O erro mais caro é tratar refratário de zona de queima de cimento como entulho de obra. A cromo-magnesita oxidada é Classe I por Cr VI, e mandá-la para aterro de inerte ou bota-fora configura enquadramento grave na Lei 9.605, a Lei de Crimes Ambientais, com multa que vai de cem mil reais a dezenas de milhões somando as esferas administrativa e penal.
O Cr VI é solúvel em água. Uma pilha de cromo-magnesita a céu aberto, exposta à chuva, lixivia cromo hexavalente para o solo e o lençol — o cenário que a CETESB DD 256/2010, diretriz de áreas contaminadas, foi feita para evitar. O resultado é um passivo de pátio: refratário acumulado sem CADRI trava a renovação da Licença de Operação.
Poeira de demolição: sílica cristalina e fibra cerâmica refratária
A demolição não é só um problema de resíduo; é de saúde ocupacional. A quebra do refratário gera poeira de sílica cristalina e libera fibra cerâmica refratária — a RCF, fibra isolante de revestimentos de baixa massa térmica. Tanto a sílica cristalina quanto a RCF têm classificação de alerta da IARC, a agência de pesquisa em câncer da Organização Mundial da Saúde.
Por isso a demolição precisa estar coberta pela NR-15, a norma de atividades insalubres, com PGR — Programa de Gerenciamento de Riscos — e PCMSO — Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional — em dia, além de proteção respiratória e umectação. Planejar a coleta sem planejar a proteção da equipe deixa metade do risco fora do plano.
Caso típico de uma parada de campanha (cenário hipotético)
Voltando à planta hipotética: a parada de retrofit libera refratário gasto numa faixa ampla de toneladas em poucos dias. Numa configuração modal, parte é sílico-aluminoso limpo com rota de reuso como agregado, parte é magnesiano que vai à cimenteira credenciada como matéria-prima alternativa, e uma fração menor da zona de queima dá positivo para Cr VI no XRF e segue como Classe I para aterro com CADRI.
O resultado típico não é financeiro, é de governança: classe definida por laudo antes da demolição, segregação na origem, MTR no SINIR, CDF arquivado e desvio de aterro documentado para a auditoria. O ganho é o passivo que não se formou e a Licença de Operação que não travou.
As cinco etapas da para o refratário gasto
Primeiro, diagnóstico de classe: amostra representativa por zona do forno e laudo XRF com lixiviação NBR 10005 e solubilização NBR 10006, com atenção ao Cr VI. Segundo, plano de segregação na demolição, separando sílico-aluminoso limpo, magnesiano, cromo-magnesita e contaminados. Terceiro, coleta e transporte de carga pesada com veículos e caçambas dimensionados para material denso. Quarto, sourcing do destinador licenciado — reciclador de agregado, cimenteira credenciada CONAMA 499 ou aterro por classe — com conferência de licença. Quinto, rastreabilidade documental: MTR no SINIR, CDF, CADRI e o dossiê de desvio de aterro para o RAPP e a auditoria de cliente.
Quem precisa olhar isso agora
A siderurgia carrega magnesiano e carbono em panela e conversor, sob pressão da ResponsibleSteel e do Scope 3. A cimenteira lida com o caso mais sensível: cromo-magnesita Classe I por Cr VI em alto volume. O vidro vigia o chumbo do AZS de cristal. A fundição tem o cubilô que retém metal. Petroquímica e cerâmica somam alta alumina e fibra cerâmica refratária, com o alerta IARC junto. Se o próximo retrofit já está no horizonte, a hora de classificar e contratar a rota é antes da parada.
Perguntas frequentes
A Seven Resíduos coleta refratário gasto de fim de campanha? Sim. Coleta, transporte de carga pesada, MTR no SINIR, CDF e sourcing de destinador licenciado para reuso como agregado, cimenteira credenciada CONAMA 499 ou aterro conforme a classe definida em laudo.
Refratário é sempre Classe IIA? Não. Sílico-aluminoso e magnesiano limpo costumam ser Classe IIA, mas cromo-magnesita oxidada vira Classe I por cromo hexavalente. Só o laudo XRF e o ensaio NBR 10005 definem a classe real.
Cromo-magnesita pode ir para aterro de inerte? Não. É Classe I por Cr VI; descartá-la como inerte é enquadramento grave na Lei 9.605. A rota é destinador licenciado com CADRI ou cimenteira credenciada conforme a análise.
Refratário limpo pode ser reusado? Sim. Sílico-aluminoso e magnesiano sem contaminação podem virar agregado refratário ou matéria-prima alternativa em cimenteira credenciada CONAMA 499, sempre com MTR e CDF rastreáveis.
A demolição do forno tem risco ocupacional? Sim. A poeira contém sílica cristalina e fibra cerâmica refratária, ambas com alerta IARC. Exige PGR, PCMSO e proteção respiratória antes da remoção.
Conclusão e próximo passo
Refratário gasto de fim de campanha se decide antes da demolição, não depois. A classe muda conforme a química real do bloco, a logística é pesada e tratar cromo-magnesita como entulho custa caro em multa e Licença de Operação travada. Com classe definida por laudo, segregação na origem e cadeia licenciada com MTR, CDF e CADRI rastreáveis, o refratário deixa de ser passivo e vira desvio de aterro documentado.
Se a sua próxima parada de retrofit já tem data, converse com a Seven Resíduos para um diagnóstico de refratário de fim de campanha — classificação, plano de segregação e rota certificada antes de a primeira pilha chegar ao pátio. Conheça a coleta de resíduos industriais, a coleta de resíduos Classe I, a destinação de resíduos Classe I e a coleta de resíduos Classe IIA. Veja também a coleta e reuso de areia de fundição, o resíduo de soldagem com recuperação de metal, o resíduo que emite carbono no Scope 3 categoria 5, como conferir a licença do destinador, o aço sustentável ResponsibleSteel e a coleta certificada pós-COP30. Referências regulatórias: Lei 12.305 da PNRS, Lei 9.605 de Crimes Ambientais, CONAMA 499 de coprocessamento e NR-15 de atividades insalubres.



